10 filmes queer horror e suspense para fãs de gênero
O cinema de horror sempre abrigou metáforas queer, da vampira lésbica dos anos 1930 ao terror corporal dos anos 2020. Selecionamos 10 filmes que fazem essa ponte entre suspense e dissidência sexual, com análise de cada obra.
O horror sempre foi um gênero generoso com metáforas queer. Antes mesmo que o New Queer Cinema dos anos 1990 institucionalizasse a leitura dissidente, filmes de monstros, vampiros e casas mal-assombradas já abrigavam desejos proibidos, corpos que transgridem e afetos que o mundo heteronormativo não sabe nomear. Esta curadoria reúne 10 filmes queer de horror e suspense que fazem essa ponte entre o medo e a dissidência sexual, organizados do mais relevante ao menos, mas todos essenciais para quem quer entender como o gênero se desdobra quando encarado de viés.
1. Drácula, a Filha (1936) Dirigido por Lambert Hillyer, este clássico da Universal é um dos primeiros filmes a sugerir uma vampira lésbica. A condessa Zaleska (Gloria Holden) não apenas drena sangue de mulheres jovens, mas estabelece com elas uma intimidade visual e tátil que a censura da época não conseguiu apagar. O subtexto é tão evidente que o filme foi cortado em algumas exibições. Para quem estuda a genealogia queer no horror, é um marco: a vampira como figura de desejo feminino proibido, anterior ao código Hays.
2. O Segredo da Cabana (2012) Drew Goddard subverte todas as regras do gênero ao colocar um casal gay (Marty e seu namorado) entre os protagonistas. Diferente da maioria dos slashers, em que personagens queer morrem primeiro, aqui eles sobrevivem até o final, e um deles participa ativamente da resistência. O filme é uma metalinguagem sobre os tropos do horror, e sua inclusão queer não é acidental: Goddard e Whedon sabiam que estavam desmontando a estrutura heteronormativa do gênero.
3. A Bruxa de Blair (2016) A sequência do clássico found footage de 1999 introduz Lisa, uma jovem lésbica que investiga o desaparecimento do irmão na floresta de Burkittsville. Embora a orientação sexual não seja o centro da trama, ela é tratada sem estigma ou tragédia, algo raro no horror mainstream. O filme usa a câmera subjetiva para criar uma intimidade claustrofóbica com a protagonista, e a dinâmica com a namorada (que aparece em ligações de vídeo) humaniza a personagem antes do terror.
4. Leviticus (2026) Terror sobrenatural australiano dirigido por Adrian Chiarella, ainda inédito no Brasil. A trama acompanha Naim e Ryan, dois jovens que enfrentam uma seita religiosa que promete "curar" sua homossexualidade. O filme usa o horror corporal e a iconografia cristã para denunciar as terapias de conversão, com cenas de possessão e exorcismo que ecoam o trauma real. É um exemplo recente de como o gênero pode ser militante sem abrir mão do suspense.
5. A Noite dos Mortos-Vivos (1990) O remake de Tom Savini para o clássico de Romero troca o protagonista masculino por Barbara (Patricia Tallman), que aqui é uma mulher forte e independente. O subtexto queer está na dinâmica entre Barbara e a jovem Sarah: há uma cumplicidade e uma proteção que o filme original não tinha. Além disso, o zumbi como metáfora para o corpo que escapa ao controle social é uma leitura que o cinema queer abraçou com frequência.
6. Jennifer's Body (2009) Karyn Kusama dirigiu este que é um dos filmes queer de horror mais reavaliados da última década. Megan Fox interpreta Jennifer, uma cheerleader possuída por um demônio que precisa devorar meninos para sobreviver. A amizade/amor não correspondido com a protagonista Needy (Amanda Seyfried) é o coração do filme. A cena do beijo entre as duas é um dos momentos mais ambíguos do horror teen, e a crítica feminista/queer abraçou a obra como um comentário sobre a sexualidade feminina demonizada.
7. A Casa do Medo (2003) Jimmy (Marc Blucas) é um jovem gay que aceita um emprego como caseiro em uma mansão isolada. O filme de David DeCoteau (conhecido por seus "horror para as mulheres") é um suspense erótico que brinca com a tensão entre o desejo e o medo. DeCoteau, diretor abertamente gay, construiu uma filmografia que coloca corpos masculinos jovens e nus em situações de perigo, subvertendo o olhar masculino heterossexual do gênero.
8. Hellbent (2004) Considerado o primeiro slasher abertamente gay, o filme de Paul Etheredge-Ouzts se passa durante a parada do orgulho LGBT em West Hollywood. Um assassino mascarado persegue um grupo de amigos gays, e a trama brinca com os clichês do gênero (o casal que faz sexo e morre, a perseguição em becos escuros) enquanto os subverte. Não é um grande filme, mas é um documento histórico: a partir dele, o slasher queer deixou de ser subtexto para ser texto.
9. O Babadook (2014) Jennifer Kent dirigiu este terror psicológico que, embora não tenha personagens abertamente queer, foi abraçado pela comunidade como um ícone. O Babadook, a criatura que atormenta uma mãe e seu filho, tornou-se um meme gay e um símbolo de resistência. A leitura queer do filme enxerga no monstro a materialização do luto e da repressão sexual da protagonista. É um caso raro de um filme que se tornou queer por adoção popular, e não por intenção autoral.
10. O Segredo do Lago (2016) Terror canadense dirigido por Lowell Dean, que acompanha um grupo de jovens em um acampamento de verão. O protagonista é abertamente gay, e o assassino usa uma máscara de caveira. O filme não inova, mas é significativo por colocar um herói queer em um slasher tradicional, sem fazer disso uma piada ou uma tragédia. A relação entre o protagonista e seu interesse amoroso é tratada com a mesma banalidade que um casal heterossexual teria, o que, no horror, ainda é um avanço.
Qual escolher? Se você busca um clássico fundador, comece por Drácula, a Filha. Para um terror metalinguístico que desconstrói o gênero, O Segredo da Cabana é a melhor entrada. Já Leviticus é a escolha certa para quem quer um horror político e contemporâneo. E se a ideia é ver como o slasher pode ser queer sem pedir licença, Hellbent ou O Segredo do Lago cumprem bem o papel. Nenhum desses filmes nasce do nada: todo gesto tem genealogia, e o que foi censurado também conta a história.
Perguntas Frequentes
O que define um filme queer de horror?
Um filme queer de horror é aquele que, por intenção autoral ou leitura crítica, usa elementos do gênero (monstros, perseguição, sobrenatural) para explorar experiências, desejos ou corpos dissidentes. Pode incluir personagens abertamente LGBTQIA+ ou subtextos que dialogam com a repressão e a diferença.
Quais são os primeiros filmes queer de horror?
Drácula, a Filha (1936) é um dos primeiros, com sua vampira lésbica. Nos anos 1960, A Maldição dos Mortos-Vivos e O Que Aconteceu com Baby Jane? também foram lidos como queer. O subtexto sempre esteve lá, mesmo quando a censura tentou apagá-lo.
Filmes queer de horror são sempre sobre personagens LGBT?
Não. Muitos filmes queer de horror não têm personagens abertamente LGBT, mas oferecem leituras dissidentes. O Babadook (2014) é um exemplo: o monstro foi adotado como ícone gay, embora o filme não tenha personagens queer.
Onde posso assistir a esses filmes?
Drácula, a Filha está em domínio público e pode ser encontrado em plataformas como YouTube e Archive.org. O Segredo da Cabana está na Netflix e no Prime Video. Jennifer's Body está no Star+. Verifique a disponibilidade em seu país, pois os catálogos variam.
Por que o horror é um gênero tão fértil para leituras queer?
Porque o horror lida com o que a sociedade reprime: o corpo que foge ao controle, o desejo proibido, o monstro que não se encaixa. A experiência queer de crescer em um mundo heteronormativo, escondendo-se, sentindo-se monstro, encontra no gênero uma metáfora poderosa.
Existem diretores queer importantes no horror?
Sim. David DeCoteau fez carreira com "horror para as mulheres" e slashers gays. James Whale (diretor de Frankenstein e A Noiva de Frankenstein) era abertamente gay. Mais recentemente, diretores como Jennifer Kent e Karyn Kusama produziram obras queer, mesmo sem se identificar publicamente como tal.