12 filmes sobre relacionamentos abertos e não-monogamia queer
Uma curadoria de 12 filmes que exploram relacionamentos abertos e não-monogamia na experiência queer, do cinema marginal dos anos 1970 às produções contemporâneas. Cada título é analisado por sua contribuição à genealogia das formas dissidentes de amar.
O cinema queer sempre esteve às voltas com a pergunta: como amar fora do script? Se a monogamia compulsória é um dispositivo de regulação heteronormativa, os filmes que reunimos aqui propõem outros arranjos, não como utopia, mas como experimento vivo. De Barbara Hammer a Park Chan-wook, cada obra desta lista tensiona o que entendemos por fidelidade, posse e intimidade. Nenhum filme nasce do nada: todo gesto tem genealogia. O que foi censurado também conta a história. Abaixo, 12 títulos que mapeiam essa tradição dissidente.
1. The Watermelon Woman (1996), Cheryl Dunye
A obra-prima de Cheryl Dunye não apenas funda um arquivo lésbico negro, como também desenha um triângulo amoroso entre a protagonista, sua namorada e o espectro de uma atriz dos anos 1930. A não-monogamia aqui não é tema explícito, mas estrutura narrativa: o desejo se distribui entre presente e passado, entre corpos vivos e memórias filmadas. Dunye mostra que a posse é uma ficção.
2. Portrait of a Lady on Fire (2019), Céline Sciamma
O famoso plano do vestido que queima é também uma metáfora para a queima do contrato monogâmico. Héloïse e Marianne vivem um amor que não precisa de exclusividade para ser total. O filme sugere que a intensidade do encontro não depende da duração ou da posse, mas da presença integral. Uma genealogia do amor lésbico que recusa a posse como medida.
3. The Handmaiden (2016), Park Chan-wook
Adaptação de Fingersmith, de Sarah Waters, o filme tece uma teia de enganos e desejos onde a protagonista Sook-hee descobre que o amor pode ser um pacto de cumplicidade contra o patriarcado. A cena final, com as duas mulheres fugindo juntas, não apaga a complexidade dos arranjos anteriores, inclusive o affair com a tia. Park mostra que a não-monogamia pode ser tática de sobrevivência.
4. Shortbus (2006), John Cameron Mitchell
Nenhum filme levou tão a sério a ideia de que o sexo é uma conversa. Em Shortbus, um casal gay em crise recorre a uma terapeuta sexual e a uma comunidade de salão onde as relações são fluidas. A cena do ménage à trois não é espetáculo, mas negociação afetiva. O filme pergunta: o que acontece quando tiramos o ciúme da equação?
5. The Kids Are All Right (2010), Lisa Cholodenko
Um casal lésbico de classe média, duas mães, um doador de sêmen que reaparece. O filme não romantiza a não-monogamia: mostra o desconforto, o ciúme e a negociação cotidiana. Mas também mostra que a família queer pode se reconfigurar sem explodir. A cena em que Jules (Julianne Moore) transa com o doador não é traição, é um sintoma de um arranjo que nunca foi fechado.
6. Weekend (2011), Andrew Haigh
Dois homens se encontram num fim de semana e vivem uma intimidade que não precisa de futuro. O filme é um estudo sobre a monogamia como expectativa social: Russell e Glen não pedem exclusividade, apenas presença. A cena final, com a gravação do áudio, é um testamento de que o amor pode ser um intervalo, não uma posse.
7. The Bitter Tears of Petra von Kant (1972), Rainer Werner Fassbinder
Fassbinder filma uma relação sado-masoquista entre Petra e Marlene, onde o ciúme e a posse são levados ao extremo. Mas é a própria estrutura da peça (um único cenário, cinco mulheres) que sugere que o amor é sempre uma coreografia de poder. A não-monogamia aqui é o avesso: o que acontece quando a posse é total? Uma crítica à monogamia como prisão.
8. Duck Butter (2018), Miguel Arteta
Duas mulheres decidem transar 24 horas seguidas para "acelerar" a intimidade. O filme é um experimento sobre a lógica da performance sexual e a falácia da transparência total. A não-monogamia aparece na impossibilidade de possuir o outro: cada encontro é uma negociação, e a posse é uma ilusão. A cena do café da manhã é um tratado sobre o cansaço da performance.
9. Stranger by the Lake (2013), Alain Guiraudie
Um thriller erótico que se passa inteiramente num ponto de encontro gay à beira de um lago. A não-monogamia é o ar: todos transam com todos, mas o ciúme e o assassinato mostram que a fluidez não elimina a violência. O filme pergunta: até onde vai a liberdade sexual quando o desejo encontra o perigo? Uma genealogia do sexo casual como forma de comunidade.
10. The Incredibly True Adventure of Two Girls in Love (1995), Maria Maggenti
Um clássico do New Queer Cinema que mostra duas adolescentes lésbicas descobrindo o amor. A não-monogamia aparece na amizade que sustenta o romance: a protagonista Randy tem uma relação complexa com a ex-namorada, e o filme não julga. A cena da briga no carro é um retrato da negociação afetiva adolescente.
11. Nina's Heavenly Delights (2006), Pratibha Parmar
Um filme escocês-indiano que mistura culinária e romance lésbico. A protagonista Nina retorna à cidade natal e reencontra uma paixão do passado, mas também precisa lidar com o noivado arranjado. A não-monogamia aqui é cultural: a família espera um casamento heterossexual, mas o desejo encontra outros arranjos. O filme sugere que a negociação é sempre local.
12. The World Unseen (2007), Shamim Sarif
Ambientado na África do Sul do apartheid, o filme mostra duas mulheres, uma indiana, uma negra, que constroem um amor proibido. A não-monogamia é imposta pelo sistema: o marido de uma das protagonistas sabe e tolera. O filme não romantiza: mostra que a negociação pode ser uma forma de sobrevivência sob opressão. A cena do baile é um raro momento de liberdade.
FAQ: Perguntas frequentes sobre relacionamentos abertos no cinema queer
Qual o primeiro filme queer a tratar de não-monogamia?
Não há um único marco, mas The Bitter Tears of Petra von Kant (1972) e os filmes experimentais de Barbara Hammer (como Dyketactics, 1974) já exploravam arranjos não-monogâmicos nos anos 1970. O New Queer Cinema dos anos 1990, com The Watermelon Woman, consolidou o tema como parte da agenda política.
Esses filmes romantizam a não-monogamia?
Majoritariamente, não. A maioria mostra o ciúme, a negociação e o desconforto. Stranger by the Lake e The Kids Are All Right são exemplos de que a não-monogamia não é utopia, mas experimento com riscos reais.
Há filmes brasileiros sobre o tema?
Sim. O Som ao Redor (2012) e Praia do Futuro (2014) de Karim Aïnouz abordam arranjos afetivos não-monogâmicos em contextos queer, embora de forma menos explícita. O cinema brasileiro contemporâneo tem investido na quebra de parâmetros.
Qual desses filmes é melhor para iniciar o debate?
Shortbus (2006) é uma porta de entrada acessível, pois equilibra humor, sexo explícito e discussão sobre afeto. Para quem prefere drama, Weekend (2011) é uma introdução sutil.
A não-monogamia no cinema queer é sempre lésbica ou gay?
Não. The Handmaiden e Portrait of a Lady on Fire são lésbicos, mas Stranger by the Lake e Weekend são gays. Há também filmes bissexuais, como Duck Butter, e obras que exploram a fluidez, como Shortbus.
Como a censura afetou esses filmes?
Muitos foram censurados ou classificados como pornográficos. Shortbus teve cenas de sexo não simulado que dificultaram a distribuição. Stranger by the Lake foi banido em alguns países. O que foi censurado também conta a história da não-monogamia.