Crítica · Análises e Críticas

"Cabeças Cortadas", de Glauber Rocha, ganhará versão 4k em 2027

ResumoO filme "Cabeças Cortadas", de Glauber Rocha, produção hispano-brasileira de 1970, receberá versão restaurada em 4k em 2027. A restauração inclui correção de cor, imagem e som, financiada por projeto da indústria cinematográfica espanhola. A obra integra o ciclo de restaurações do diretor baiano, preservando o legado do Cinema Novo.

Produção hispano-brasileira de 1970, "Cabeças Cortadas" ganhará versão restaurada em 4k em 2027, com correção de cor, imagem e som, por meio de projeto da indústria do cinema espanhol.

Marlene Yoshida Cabral
Marlene Yoshida Cabral Documentarista e analista de cinema do real · 25 de agosto de 2026
"Cabeças Cortadas", de Glauber Rocha, ganhará versão 4k em 2027
8.3/10
VereditoProdução hispano-brasileira de 1970, "Cabeças Cortadas" ganhará versão restaurada em 4k em 2027, com correção de cor, imagem e som, por meio de projeto da indústria do cinema espanhol.

Quando decidi escrever sobre a restauração de "Cabeças Cortadas", a primeira imagem que me veio foi a cena do telefone, em que o déspota Diaz II, interpretado por Francisco Rabal, questiona os efeitos climáticos e lembra que já "extinguiu vulcões". É um dos momentos mais enigmáticos do cinema de Glauber Rocha, e agora ele ganhará uma versão 4k em 2027, 45 anos após a morte do cineasta, graças a um projeto de restauração da indústria do cinema espanhol.

A obra, rodada em 1970 na Catalunha, no norte da Espanha, é uma produção hispano-brasileira que usa a metáfora da decadência de um ditador para refletir sobre as ditaduras na América Latina e na Península Ibérica. O personagem, atormentado por seus atos, espera a morte, enquanto Glauber o descreve como um tirano que mistura referências de déspotas latino-americanos com Francisco Franco. A restauração digital, que inclui correção de cor, imagem e som, será feita pela Escola de Cinema de Madrid (Ecam), a Vídeo Mercury Films e a FlixOlé, distribuidora e plataforma de streaming especializada em cinema espanhol.

Para o diretor e crítico Cavi Borges, a obra é clássica tanto pelo tema, que aborda a dominação norte-americana, o racismo e o fascismo, quanto pelo rompimento estético com o cinema comercial. "O filme de Glauber e o que ele representa vão na contramão do momento em que vivemos, em que o cinema norte-americano e seu streaming crescem e dominam toda a indústria", avaliou à Agência Brasil. Ele também destacou que esta é uma das últimas obras de Glauber ainda não restauradas, uma celebração do cinema anti-imperialista.

O projeto inclui um website com depoimentos de artistas que participaram da filmagem, como Paco Rabal, além de bastidores que enfrentaram os fortes ventos da Tramontana. Para Miguel López, representante da FlixOlé e da Vídeo Mercury Films, o filme estava "completamente esquecido e inacessível", e a nova cópia digital é uma oportunidade de reapresentá-lo ao público. Em nota conjunta, as organizações afirmaram que a iniciativa devolve a obra, "uma joia rara do cinema espanhol", ao seu devido lugar na história, conectando-a à América Latina e à vanguarda europeia.

Glauber, que morreu em 1981, definiu "Cabeças Cortadas" como um filme do "Terceiro Mundo sobre o Terceiro Mundo", que busca comunicação com a sensibilidade do espectador por uma linguagem diferente da tradicional. Ele comparou a experiência a ler um poema ou ver uma exposição de pintura, um aviso para quem se aproxima da obra sem contexto. A restauração em 4k não é apenas uma atualização técnica; é um gesto ético de devolver ao público uma obra que ficou décadas inacessível, e que talvez só agora encontre o espectador que Glauber imaginava.

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