# Cais do Valongo terá museu em prédio histórico do Império

> Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, terá museu no Edifício Docas André Rebouças, construção imperial de 1871. A obra, orçada em R$ 77 milhões, prevê acervo com mais de 1 milhão de peças. O projeto integra a revitalização do sítio arqueológico, reconhecido pela UNESCO como patrimônio mundial.

*New Queer Cinema · Análises e Críticas · 25 de agosto de 2026 · Marlene Yoshida Cabral*

O Cais do Valongo, no Rio, terá um museu no Edifício Docas André Rebouças, construção imperial de 1871. A obra, orçada em R$ 77 milhões, prevê acervo com mais de 1 milhão de peças.

A decisão de filmar começa antes da câmera: no caso do Cais do Valongo, começa na escolha de qual prédio guardará a memória. Nesta terça-feira (18), um cortejo do Afoxé Filhos de Gandhi marcou a entrega do Edifício Docas André Rebouças, construção do tempo do Império, para abrigar o museu do sítio arqueológico, berço da presença africana no Brasil.

O galpão fica imediatamente em frente ao Cais do Valongo, na região portuária do Rio de Janeiro, separado por apenas uma rua. Descoberto em 2011, durante obras de revitalização, o cais foi construído em 1811 e reúne vestígios da chegada de cerca de 1 milhão de africanos escravizados às Américas. Hoje, o sítio é um espaço a céu aberto, com placas informativas, onde o visitante enfrenta sol ou chuva para ver a escavação.

O presidente do Iphan, Deyvesson Gusmão, defende que a narrativa do sítio seja contada também dentro do prédio. A transformação em Centro de Interpretação da Herança Africana do Cais do Valongo está orçada em R$ 77 milhões, com recursos da União, e as obras devem durar três anos. O local também abrigará o Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana e o Memorial André Rebouças, engenheiro que dá nome ao prédio. O então Armazém Dom Pedro II só ganhou o nome de Rebouças, responsável pelo projeto, em 2025. O baiano foi o primeiro engenheiro negro do país e um dos nomes do movimento abolicionista. O prédio, construído em 1871, não contou com mão de obra escravizada.

O acervo deve superar 1 milhão de peças, segundo o presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge Santos Rodrigues. Alguns itens já identificados, como anéis, cachimbos, peças de vestuário e iscas de pesca, estavam expostos em outros museus. A ministra da Cultura, Margareth Menezes, vê o centro como reparação após séculos de escravidão. O comitê gestor do Cais do Valongo reúne as três esferas de governo e a sociedade civil. Nilson Moreira, da Casa da Tia Ciata, trineto da matriarca do samba (1854-1924), afirma que o espaço dará mais conteúdo a quem chega à escavação. A Pequena África, região que registra a chegada de africanos, já é uma das mais visitadas do Rio. Ao lado do futuro centro, a prefeitura constrói o Centro Cultural Rio-Áfricas.

A questão ética que o filme levanta: como acolher o visitante sem transformar a dor em espetáculo? O prédio de 1871, que não usou mão de obra escravizada, agora se propõe a guardar o que a escavação revelou. Resta saber se a estrutura de R$ 77 milhões dará conta de contar essa história sem reduzi-la a um resumo na frente da escavação.

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Fonte (canonical): https://www.newqueercinema.com.br/analises-e-criticas/cais-valongo-rio-tera-museu-predio-historico-imperio/
