# Calila das Mercês lança livro e celebra literatura no interior

> Calila das Mercês lança Nódoa, primeiro romance, e celebra a literatura produzida no interior. A escritora atua como curadora da Fliparacatu 2026, ao lado de Sérgio Abranches e Afonso Borges. O lançamento reforça a presença de vozes regionais no cenário literário nacional.

*New Queer Cinema · Análises e Críticas · 31 de agosto de 2026 · Cássio Drummond Belforte*

Calila das Mercês lança Nódoa, primeiro romance, e celebra a literatura feita no interior. Ela é curadora da Fliparacatu 2026, ao lado de Sérgio Abranches e Afonso Borges.

Calila das Mercês lançou em julho Nódoa, seu primeiro romance, pela Companhia das Letras. A pesquisadora, jornalista e escritora também assina a curadoria da quarta edição do Festival Literário de Paracatu (Fliparacatu), ao lado de Sérgio Abranches e Afonso Borges, idealizador e presidente do evento. O festival acontece de 26 a 30 de agosto de 2026, no Centro Histórico da cidade mineira, a 500 quilômetros de Belo Horizonte, com entrada gratuita.

Neste ano, o tema Sertão em Nós: Meu Lugar no Mundo propõe uma conversa entre dois pensadores fundamentais do Brasil profundo: Milton Santos, cujo centenário foi comemorado em maio, e João Guimarães Rosa, que apresentava ao mundo o seu Grande Sertão: Veredas, há 70 anos. Calila fala com carinho dos livros de Guimarães Rosa. Grande Sertão ela chama de "fabuloso". Campo Geral, de 1956, a deixou "muito emocionada". Com Milton, ela divide o lugar, o território e o interior da Bahia.

"A gente está homenageando também meu conterrâneo, que é o Milton Santos, que marcou sua existência, no Brasil e no mundo, trazendo discussões que nos são muito caras. Sobre a questão do nosso lugar, mas também sobre como a gente pode pensar o território sem engessar", conta.

A escritora, que já assinou eventos literários em Cachoeira (BA) e em Cavalcante (GO), celebra a realização desses encontros pelo interior do Brasil. Ao mesmo tempo, demonstra preocupação com o manejo dessas festas e com o risco de que se tornem palanques políticos, festas com "donos", que ditariam como a literatura deve adentrar esses locais. Além disso, ela defende um olhar respeitoso sobre o que é produzido em cada um desses lugares.

"Acho que o grande desafio é a gente produzir uma ideia de que o pensamento não chega de fora. Ele não, necessariamente, chega dos grandes centros. Eu acho que Paracatu é um lugar que produz pensamento, que tem trazido consigo também uma identidade, um jeito muito daqui de fazer acontecer", afirma.

Para ela, o festival consegue criar as condições de integrar pessoas e promover conversas surpreendentes, com pessoas de diferentes sotaques, respeitando a literatura produzida na cidade. Entre os nomes que passam por Paracatu este ano estão Mia Couto, Alê Santos, Bruna Lombardi, Eliana Alves Cruz, Jeferson Tenório, Jeovanna Vieira, Paulliny Tort e Renato Nogueira.

Sobre Nódoa, Calila conta que ainda está aprendendo a falar sobre o livro, que foi todo escrito em movimento. "Eu escrevi dentro do ônibus, eu escrevi em uma rodoviária, escrevi no barulho, escrevi com mudança. Mudanças necessárias, mudanças de casa. Condições mais precárias, condições mais tranquilas. É um livro sobre movimento e eu escrevo tudo me movendo", lembra.

Nesse movimento, Calila foi quatro vezes ao rio São Francisco e foi ver o maior cajueiro do mundo. Segundo ela, o objetivo foi se conectar com os pedaços de natureza e também de urbanidade. Nesse contato com a natureza, viu sua escrita germinar, com toda a criatividade e a radicalidade que seus textos exigem.

O livro é narrado por Regina e por Lurdes Maria. As muitas mulheres do livro estão em constante movimento sem, entretanto, se perderem umas das outras. A obra também é pensada na forma, na materialidade da escrita, em maiúsculas e minúsculas. Os recursos são usados para traduzir cada personagem: a que não sabe nem ler nem escrever; a que só fala baixinho, com vergonha; a artista plástica.

"Eu queria usar o papel e também essa parte da editoração, da parte gráfica, para elucidar esse trabalho das maiúsculas e minúsculas, de quem fala em terceira pessoa, de quem fala abaixo, de quem só tem a oralidade como fonte de comunicação e o gesto e o corpo e os silêncios. Então, uso muito silêncio nas páginas", explica.

O livro foi todo feito pensando na força das outras linguagens. As palavras formam desenhos. Há um trabalho sensorial e de oralidade que entrega ao leitor outras formas de ver e ler a obra. E que deixam marcas, que deixam nódoas.

"Às vezes a nódoa lembra a gente de um suco que caiu na roupa, um suco que alguém que a gente ama fez. Às vezes uma mancha de dendê que não saiu, mas que foi de um caruru, aquela avó que nem está ali mais. Então, eu acho que as nódoas também mancham, e deixam marcas que ficam e que são importantes", finaliza.

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Fonte (canonical): https://www.newqueercinema.com.br/analises-e-criticas/calila-merces-lanca-livro-celebra-literatura-feita-interior/
