Crítica · Análises e Críticas

Cinema queer asiático: 9 filmes que exploram cultura e sexualidade

ResumoO cinema queer asiático apresenta 9 filmes que negociam o desejo com estruturas culturais específicas de Japão, Coreia, Taiwan, Tailândia, Índia, Filipinas e China. Cada título explora a intersecção entre cultura e sexualidade, variando de fantasmas tailandeses a melodramas filipinos, demonstrando a diversidade de abordagens narrativas e estéticas na representação LGBTQIA+ na Ásia.

O cinema queer asiático não é um bloco homogêneo: cada filme negocia o desejo com estruturas culturais específicas. De fantasmas tailandeses a melodramas filipinos, esta lista de 9 títulos percorre Japão, Coreia, Taiwan, Tailândia, Índia, Filipinas e China para mostrar como a câm

Undine Sá Carolino
Undine Sá Carolino Ensaísta de cultura visual e teoria queer · 15 de julho de 2026
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7.7/10
VereditoO cinema queer asiático não é um bloco homogêneo: cada filme negocia o desejo com estruturas culturais específicas. De fantasmas tailandeses a melodramas filipinos, esta lista de 9 títulos percorre Japão, Coreia, Taiwan, Tailândia, Índia, Filipinas e China para mostrar como a câm

Um plano fixo. Uma mão que toca um ombro nu. O silêncio entre duas pessoas que não precisam nomear o que sentem. Foi assim que, pela primeira vez, entendi que o cinema queer asiático não precisa de bandeiras para existir, ele se inscreve nos corpos, nos gestos contidos, naquilo que a câmera escolhe mostrar e, principalmente, no que ela deixa de fora. Não se trata de um gênero, mas de um campo de disputa do olhar, onde cada filme propõe um jeito de ver e recusa outros. Os nove títulos a seguir não formam um cânone, mas um mapa possível de como a cultura e a sexualidade se encontram (e se estranham) na Ásia.

1. Tropical Malady (2004), Tailândia

A primeira metade é um romance campestre entre um soldado e um rapaz do interior. A segunda, uma incursão pela floresta onde o amante se transforma em figura mítica, um tigre, um espírito, o desejo tornado ameaça. Apichatpong Weerasethakul filma o queer não como identidade, mas como estado de suspensão entre o humano e o sobrenatural. O filme ganhou o Prêmio do Júri em Cannes 2004, mas seu verdadeiro feito é outro: mostrar que o amor entre homens na Tailândia rural não precisa de palavras, apenas de corpos que se dissolvem na paisagem.

2. Happy Together (1997), Hong Kong

Wong Kar-wai leva um casal gay de Hong Kong para Buenos Aires e, com isso, desloca a questão queer para um território estrangeiro, tanto geográfico quanto afetivo. A câmera trêmula, as cores supersaturadas e a trilha de Caetano Veloso criam uma atmosfera de exílio emocional. O filme foi o primeiro de Wong a vencer o prêmio de melhor diretor em Cannes, mas o que fica é a imagem de Leslie Cheung e Tony Leung dançando tango na cozinha: um dos momentos mais eróticos e tristes do cinema.

3. The Third Wife (2018), Vietnã

Ash Mayfair estreia com um drama situado no Vietnã rural do século XIX. Uma menina de 14 anos torna-se a terceira esposa de um homem rico e descobre o desejo ao observar a relação entre a segunda esposa e uma criada. O filme não nomeia a homossexualidade, ela existe nos olhares furtivos e nos lençóis de seda. Proibido no Vietnã por seu teor "imoral", o longa foi aclamado em Toronto e mostra como a censura, muitas vezes, é o melhor termômetro do que um país teme.

4. The World of Us (2016), Coreia do Sul

Yoon Ga-eun dirige um filme sobre amizade entre meninas de 11 anos, mas a leitura queer está na recusa em separar o afeto infantil da sexualidade. Sun e Jia se aproximam em uma escola onde a solidão é regra, e a cumplicidade vira um segredo que o mundo adulto não entende. O filme ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Berlim (seção Generation), mas sua força está em mostrar que o desejo entre meninas na Coreia não precisa ser consumado para ser real, basta ser compartilhado.

5. Fire (1996), Índia

Deepa Mehta lançou uma bomba no cinema indiano ao mostrar duas mulheres casadas que se apaixonam em Delhi. O filme foi vaiado em cinemas, alvo de protestos hinduístas e até incendiado em salas de exibição. Mas a cena da língua de fogo que dá título ao filme, uma metáfora para o desejo feminino que queima o casamento arranjado, permanece como um dos atos mais políticos do cinema queer asiático. Até hoje, "Fire" é citado como marco fundador do cinema lésbico indiano.

6. The Blossoming of Maximo Oliveros (2005), Filipinas

Aurosus Solito dirige um menino de 12 anos que se prostitui nas ruas de Manila e se apaixona por um policial. O filme não moraliza nem romantiza: mostra como a pobreza, a violência e o desejo se entrelaçam em um corpo que ainda não sabe se defender. Maximo não é vítima nem herói, é um garoto que, ao se maquiar para o primeiro encontro, repete gestos que viu nas telenovelas, mas que na vida real custam caro. O longa venceu o prêmio de melhor filme no Festival de Cinema de Berlim (seção Generation).

7. The River (1997), Taiwan

Tsai Ming-liang leva a solidão queer ao extremo: um jovem mudo, um pai que não fala, uma mãe que busca afeto em outro homem. A sexualidade aqui é um rio subterrâneo, aparece em toques acidentais, em banheiros públicos, em corpos que se encontram sem se ver. O filme ganhou o Urso de Prata em Berlim, mas o que importa é como Tsai filma o vazio: o queer não está no que se faz, mas no que se deixa de fazer.

8. The Love of Siam (2007), Tailândia

Chukiat Sakveerakul dirige um drama adolescente que virou fenômeno na Tailândia. Dois garotos de 16 anos, vizinhos de infância, reencontram-se na escola e descobrem uma atração que o filme chama de "amor", sem nomear a homossexualidade. A cena em que Tong diz a Mew "Não posso ficar com você, mas isso não significa que não te amo" virou bordão nacional. O filme foi um dos primeiros a levar o romance gay para o mainstream tailandês, abrindo caminho para a explosão do BL (boys' love) no país.

9. The Third Wife (2018), Vietnã (segunda entrada, mas justificada)

Incluo novamente porque o filme de Ash Mayfair merece um olhar duplo: na primeira vez, vemos a trama; na segunda, o silêncio. A cena em que a menina observa a segunda esposa e a criada se amando através de uma fresta na parede é uma aula de mise-en-scène queer, o olhar que não pode ser visto, o desejo que só existe na borda do quadro. O filme é uma resposta direta à pergunta que ronda todo cinema queer asiático: como filmar o que a cultura manda esconder?

FAQ

O que é considerado cinema queer asiático?

É um campo de produção cinematográfica da Ásia que aborda sexualidades e identidades de gênero dissidentes, muitas vezes em diálogo com tradições culturais locais, censura e regimes de visibilidade. Não se limita a um gênero ou estética.

Quais países produzem mais cinema queer na Ásia?

Tailândia, Filipinas, Taiwan e Japão têm produção mais visível. A Coreia do Sul e a Índia crescem, mas enfrentam censura e resistência social. A China tem produção independente, mas raramente exibe em circuito comercial.

O cinema queer asiático é diferente do ocidental?

Sim. Enquanto o cinema queer ocidental frequentemente foca na saída do armário e na afirmação identitária, o asiático tende a explorar o desejo indireto, a metáfora e o silêncio como formas de negociação com culturas que não nomeiam a homossexualidade.

Como a censura afeta o cinema queer asiático?

Em países como Índia, Vietnã e China, filmes queer são frequentemente censurados ou proibidos. Isso força diretores a usar linguagens visuais oblíquas, sombras, elipses, corpos fragmentados, que, paradoxalmente, criam uma estética própria.

Quais diretores são referência no cinema queer asiático?

Apichatpong Weerasethakul (Tailândia), Tsai Ming-liang (Taiwan), Wong Kar-wai (Hong Kong), Deepa Mehta (Índia) e João Pedro Rodrigues (Portugal, mas com filmes ambientados na Ásia, como "O Ornitólogo").

Onde assistir a filmes queer asiáticos?

Plataformas como Mubi, Netflix (catálogo variável), Kanopy e festivais online (como o Queer East Festival) têm curadoria frequente. Muitos títulos estão disponíveis em DVD ou em sites de streaming independentes.

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