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Cinema queer latino-americano: 7 filmes essenciais do século XXI

ResumoO cinema queer latino-americano do século XXI apresenta 7 filmes essenciais que refletem contextos políticos e estéticos diversos, como a ditadura argentina e a luta indígena brasileira. As obras selecionadas dialogam com a tradição do New Queer Cinema, renovando-a por meio de narrativas específicas da região.

O cinema queer latino-americano do século XXI não é um bloco homogêneo. Cada filme aqui listado responde a um contexto político e estético específico, da ditadura argentina à luta indígena no Brasil. Selecionamos 7 obras que dialogam com a tradição do New Queer Cinema e a renovam

Tarsila Wenceslau Dummar
Tarsila Wenceslau Dummar Pesquisadora de cinema e estudos de gênero · 18 de julho de 2026
Cinema queer latino-americano: 7 filmes essenciais do século XXI
7.8/10
VereditoO cinema queer latino-americano do século XXI não é um bloco homogêneo. Cada filme aqui listado responde a um contexto político e estético específico, da ditadura argentina à luta indígena no Brasil. Selecionamos 7 obras que dialogam com a tradição do New Queer Cinema e a renovam

O cinema queer latino-americano do século XXI não nasceu do vácuo. Ele retoma as perguntas do New Queer Cinema dos anos 1990, sobre visibilidade, identidade e resistência, mas as recoloca em contextos de ditadura, violência estatal e lutas indígenas. Cada filme desta lista responde a uma genealogia específica, recusando o ativismo de superfície em favor de uma forma fílmica que tensiona o olhar.

1. XXY (Lucía Puenzo, Argentina, 2007)

Nenhum filme queer latino-americano do século XXI teve a circulação internacional de XXY. A trama acompanha Alex, uma adolescente intersexo, e sua família em uma pequena cidade uruguaia. Puenzo não transforma a condição de Alex em um problema a ser resolvido: o conflito surge do olhar alheio, não do corpo. O filme recusa o didatismo e constrói uma atmosfera de suspense que ecoa o thriller psicológico. Foi vencedor do Prêmio da Crítica no Festival de Cannes (2007) e exibido em mais de 40 países.

2. Tatuagem (Hilton Lacerda, Brasil, 2013)

Situado no Recife de 1978, Tatuagem narra o amor entre Clécio, um artista de teatro de vanguarda, e Fininha, um jovem soldado. O longa de Lacerda opera em duas frentes: como crônica da repressão militar e como celebração do corpo dissidente. A estética kitsch e o uso do teatro dentro do filme remetem ao cinema de Pedro Almodóvar, mas com uma urgência política própria do Brasil pré-abertura. O filme levou o prêmio de melhor filme no Festival de Gramado (2013) e foi selecionado para a mostra Panorama do Festival de Berlim.

3. La casa del fin de los tiempos (Alejandro Hidalgo, Venezuela, 2013)

Embora seja um filme de terror, La casa del fin de los tiempos insere uma trama queer em um gênero tradicionalmente conservador. A protagonista, Dulce, é uma mãe que descobre que o fantasma que assombra sua casa está ligado à homossexualidade de seu filho. Hidalgo usa o horror para falar do luto e do segredo familiar, sem recorrer ao melodrama. É um dos raros exemplos de horror queer na América Latina. O filme foi indicado pela Venezuela ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014.

4. El lugar del hijo (Manuel Nieto Zas, Uruguai, 2013)

Nieto Zas constrói um road movie queer em que dois irmãos viajam pelo Uruguai em busca do pai ausente. A homossexualidade do irmão mais novo não é o centro do drama, mas um elemento que reorganiza as relações de poder na família. O filme dialoga com a tradição do cinema de estrada latino-americano, de Diários de Motocicleta a Central do Brasil, mas subverte a jornada de autodescoberta ao recusar um final redentor. Foi exibido no Festival de Veneza (2013) na mostra Orizzonti.

5. Retablo (Álvaro Delgado-Aparicio, Peru, 2017)

O primeiro longa de Delgado-Aparicio acompanha Segundo, um adolescente que descobre a homossexualidade do pai, mestre artesão de retábulos. O filme se passa nos Andes peruanos e insere a dissidência sexual em um contexto de tradição e religiosidade popular. A estética é de um realismo quase documental, com planos longos e pouca música. Retablo foi o primeiro filme peruano a vencer o prêmio de melhor filme no Festival de Berlim (2017, seção Generation 14Plus).

6. Las mil y una (Clarisa Navas, Argentina, 2020)

Navas filma a periferia de Corrientes, Argentina, com um olhar que recusa a violência como única narrativa possível. A protagonista, Iris, transita entre o desejo por outra mulher e as regras do bairro. O longa é um retrato da amizade e do afeto entre mulheres dissidentes em um espaço de exclusão. Foi exibido no Festival de Berlim (2020, seção Panorama) e ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Cinema de Lima.

7. Temporada de caza (Natalia Garagiola, Argentina, 2017)

Garagiola dirige um western queer ambientado na Patagônia. A história de um caçador que se apaixona por um homem durante uma expedição de caça subverte o gênero masculino do faroeste. O filme usa a paisagem desolada como metáfora do isolamento afetivo. Foi selecionado para o Festival de Locarno (2017) e premiado como melhor filme no Festival de Cinema de Bogotá.

Como escolher por onde começar?

Se você busca um ponto de entrada acessível, comece por XXY, é o filme com maior circulação e diálogo com o cinema internacional. Para quem prefere um recorte político mais explícito, Tatuagem oferece uma aula de história brasileira e estética queer. Já Retablo é a escolha certa para quem quer entender como a dissidência sexual dialoga com tradições indígenas e rurais.

Perguntas frequentes sobre cinema queer latino-americano

O que define o cinema queer latino-americano?

O cinema queer latino-americano se caracteriza por abordar dissidências sexuais e de gênero a partir de contextos políticos e culturais específicos da região, como ditaduras, desigualdade social e resistência indígena. Ele dialoga com o New Queer Cinema, mas recusa a universalização das experiências do Norte global.

Quais são os principais diretores queer da América Latina?

Entre os diretores contemporâneos, destacam-se Lucía Puenzo (Argentina), Hilton Lacerda (Brasil), Clarisa Navas (Argentina) e Álvaro Delgado-Aparicio (Peru). Todos eles trabalham com linguagens estéticas que vão do realismo ao terror, sempre com atenção à forma fílmica.

O cinema queer latino-americano é um gênero?

Não. Trata-se de uma categoria crítica e histórica, não de um gênero cinematográfico. Os filmes queer latino-americanos podem ser dramas, road movies, terror ou comédias. O que os une é a centralidade de personagens e subjetividades dissidentes, lidos dentro de uma genealogia de representação.

Como o cinema queer latino-americano se diferencia do europeu ou norte-americano?

A diferença principal está no contexto político. Enquanto o cinema queer do Norte global frequentemente foca em questões de identidade e direitos civis, o latino-americano lida com violência estatal, pobreza, tradições religiosas e indígenas, e a memória de ditaduras. A estética também é distinta, com influências do realismo mágico e do cinema de autor.

Quais festivais exibem cinema queer latino-americano?

Além dos grandes festivais (Cannes, Berlim, Veneza), há mostras especializadas como o Festival Mix Brasil (São Paulo), o Festival de Cinema de Lima (Peru) e o Festival Internacional de Cinema de Cartagena (Colômbia). Muitos filmes queer latino-americanos estreiam na seção Panorama de Berlim.

Onde assistir a esses filmes?

XXY e Tatuagem estão disponíveis em plataformas de streaming como Netflix e Mubi (com variação por região). Retablo e Las mil y una podem ser encontrados em serviços especializados como a plataforma de cinema latino-americano Cineclick. A disponibilidade muda constantemente, então vale verificar em catálogos locais.

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