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Literatura humaniza e leva à reflexão, diz Itamar Vieira Junior

ResumoItamar Vieira Junior encerra a Trilogia da Terra com o romance Coração sem Medo. A literatura humaniza e provoca reflexão sobre o desaparecimento de filhos, tema recorrente nas periferias brasileiras. A obra aborda a dor e a ausência como experiências coletivas, ampliando a compreensão social por meio da narrativa ficcional.

Itamar Vieira Junior encerra a Trilogia da Terra com Coração sem Medo. A literatura humaniza e leva à reflexão sobre o desaparecimento de filhos, tema que atravessa as periferias.

Marlene Yoshida Cabral
Marlene Yoshida Cabral Documentarista e analista de cinema do real · 10 de agosto de 2026
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8.3/10
VereditoItamar Vieira Junior encerra a Trilogia da Terra com Coração sem Medo. A literatura humaniza e leva à reflexão sobre o desaparecimento de filhos, tema que atravessa as periferias.

Escritor diz que literatura tem poder de humanizar e levar à reflexão

Com o livro Coração sem Medo, o escritor Itamar Vieira Junior encerra sua trilogia sobre a terra, que teve início com o sucesso Torto Arado e passou por Salvar o Fogo. A obra fala sobre os desterrados e sobre um tema universal na literatura, mas que no Brasil atravessa principalmente as populações periféricas: o desaparecimento de um filho, possivelmente vítima de violência.

O que diz o escritor sobre o poder da literatura

Para Itamar, a literatura tem uma capacidade grande de humanizar. Essas histórias aparecem muitas vezes na imprensa, mas de forma superficial. "Quem trata dos sentimentos e das subjetividades humanas é a arte e a arte tem o poder de devolver a vida, de humanizar aquilo que parece desumanizado", disse ele.

Embora seja capaz de humanizar, essa mesma arte ainda não é capaz de fornecer respostas, afirma Itamar. A tarefa da literatura, acrescenta, continua sendo a de provocar incômodos ou reflexões sobre o fato. "Acho que sempre há caminhos. Tudo que a arte não faz é dar respostas. Eu acho que ela nos ajuda a refletir sobre o que está acontecendo. Ela nos incomoda, a arte tem essa capacidade de incomodar. E acho que é a partir do incômodo que as mudanças vêm".

Coração sem Medo e a Trilogia da Terra

Coração sem Medo compõe a Trilogia da Terra, histórias que se comunicam e falam do direito elementar à terra, que atravessa a vida de todos, mas que ainda é negado para muitos. O livro conta a história de Rita Preta, personagem que vive em Salvador.

"É a história daqueles que foram desterrados, que não puderam lutar pela terra. Rita é uma mulher feliz, é caixa de supermercado, ela, enfim, toca a vida como pode, tem três filhos e, de repente um dos filhos desaparece. E aí começa a jornada dela para saber o que aconteceu", contou.

O drama do desaparecimento no Brasil

Embora seja ficcional, o drama vivido por Rita Preta reflete um número cruel da realidade brasileira. Só no primeiro semestre deste ano, o Brasil registrou 43.828 pessoas desaparecidas, uma média de 242 sumiços por dia. Em todo o ano passado, foram 85.232 casos de desaparecimentos, uma média de 234 sumiços a cada dia.

Os dados fazem parte do Painel Estatístico do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça, e podem não refletir totalmente a realidade, já que muitos casos sequer são notificados.

Em entrevista à Agência Brasil, antes de falar do seu novo livro na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em um palco ao ar livre lotado, Itamar revelou que o drama vivido por Rita atinge todas as classes sociais, embora suas maiores vítimas sejam as mães que vivem nas periferias brasileiras.

"Eu sei que o desaparecimento atinge todas as classes, pessoas de todas as origens, mas ele é cruel porque se concentra muitas vezes naqueles que mais precisam e daqueles que mais carecem de políticas públicas do Estado. Esse é um tema que não envelhece e que ainda está à nossa volta", afirmou.

A jornada de Rita Preta em Salvador

No livro, o desaparecimento ocorre após um desentendimento entre mãe e filho. Com o passar dos dias, a operadora de caixa vai percebendo que o desaparecimento pode não ter ocorrido por causa disso e ela passa a dedicar-se à busca pelo paradeiro do filho.

"A nossa cidade, Salvador, infelizmente está cheia dessas mulheres que precisam enfrentar essa história, essa dor. Vivemos em um estado que tem uma das polícias mais letais do país. Essa é uma realidade. Vivemos em um espaço também onde o crime está conflagrado. E isso atinge as pessoas inocentes, pessoas que, enfim, querem apenas viver. E é importante lembrar de tudo isso. E o que é que resta depois? O que é que sobra para essa mulher, para essa personagem? Ela vai desistir da vida ou vai buscar por justiça?"

Durante essa busca, Rita vai perceber que "a história não começou exatamente agora, mas é algo que vem de muito tempo antes" e que ela vai precisar se conectar com seus antepassados e suas origens.

"Essas perdas atravessam a história da humanidade. Nós convivemos hoje com mulheres que estão passando por isso e a gente nem se dá conta de que parece que a história humana tem essa capacidade de se repetir em muitos tempos", disse.

A terra como território e memória

Em seu novo romance, Itamar transporta a ação do campo, como ocorreu em Torto Arado, para a cidade. "A gente pensa em Salvador, nessa riqueza cultural, nessas contradições históricas e parece que tudo já nasceu e já aconteceu aqui. Mas essa cidade cresce e acontece a partir de muitas chegadas", disse ele ao público presente no Largo do Pelourinho durante a Flipelô.

"Desde os povos originários que aqui estavam, passando pela invasão dos europeus e pela diáspora para Salvador, afluíram tantos povos, tantas etnias. E no século 20, em particular, chega muita gente do interior da Bahia por meio do êxodo rural. Muitos vieram viver na cidade pelo acirramento dos conflitos fundiários ou pela esperança que depositaram na vida na cidade", afirmou.

No caso de Rita Preta, ela sai do campo para viver na capital baiana e, em Salvador, percebe que há muitos outros conflitos na vida urbana. "Eu sei que muitos chegaram aqui e a história da Rita é semelhante à história de muitos que aportaram em Salvador para viver e que, às vezes, fugiram de um conflito fundiário, como ela escapa, mas aqui vai descobrir que a cidade é um território desigual, que também vive em disputas. A cidade não pode ser habitada por todos da mesma maneira. Pelo contrário".

A terra que une os três livros

Seja no campo ou na cidade, esse drama sobre o direito à terra, ressaltou o escritor, perpassa toda sua trilogia.

"Eu digo o seguinte: em Torto Arado, a terra é território e pertencimento. Em Salvar o Fogo, ela se confronta com a violência, a fé e a disputa pelo sagrado. E em Coração sem Medo, essa história chega a uma Salvador urbana, atravessada pelo deslocamento e pela violência contemporânea", disse ele.

Essa terra que une os três livros, afirma o escritor, poderia ser entendida como um lugar físico, uma memória ancestral ou até mesmo como aquilo "que um povo carrega consigo mesmo quando já lhe arrancaram a própria terra".

"Quando um personagem, que é o filho da Rita, desaparece nesse último romance, esse corpo, que é um território, não é muito diferente da terra que está em disputa em Torto Arado, nem é muito diferente da terra que é tida ali como patrimônio de uma igreja em Salvar o Fogo. Esse corpo é um território também. E se tiraram ele de Rita é porque ainda existem corpos e ainda existem territórios que não são cuidados, que não são integrados e que não estão vivos porque essa violência histórica nos atravessa".

Perguntas Frequentes

Qual é o novo livro de Itamar Vieira Junior?

O novo livro é Coração sem Medo, que encerra a Trilogia da Terra, iniciada com Torto Arado e que passou por Salvar o Fogo.

Qual é o tema de Coração sem Medo?

O livro aborda o desaparecimento de um filho, tema que atinge principalmente as populações periféricas no Brasil, e a jornada de Rita Preta em busca do paradeiro do filho.

O que o escritor diz sobre o poder da literatura?

Itamar afirma que a literatura tem a capacidade de humanizar e de provocar reflexões, mas não de dar respostas. Para ele, é a partir do incômodo que as mudanças vêm.

Quais são os dados sobre desaparecimento no Brasil?

No primeiro semestre deste ano, o Brasil registrou 43.828 pessoas desaparecidas, média de 242 por dia. Em todo o ano passado, foram 85.232 casos, média de 234 por dia, segundo o Sinesp.

Onde Itamar apresentou o novo livro?

Ele falou sobre o livro na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em um palco ao ar livre no Largo do Pelourinho, em Salvador.

Trilogia da Terra de Itamar Vieira Junior Desaparecimento de pessoas no Brasil

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