# Escritora Nathacha Appanah é destaque internacional na Flip

> Na 24ª edição da Flip, a escritora franco-mauriciana Nathacha Appanah se destaca ao discutir a violência doméstica em sua obra. Nascida nas Ilhas Maurício, ela reflete sobre deslocamento e identidade cultural.

*New Queer Cinema · Análises e Críticas · 27 de julho de 2026 · Cássio Drummond Belforte*

## Escritora Nathacha Appanah é um dos destaques internacionais da Flip

Na 24ª edição da Festa Literária de Paraty (Flip), a diversidade geográfica e cultural dos convidados foi ampliada, reunindo escritores de diferentes países e trajetórias. Um dos principais destaques foi a escritora franco-mauriciana Nathacha Appanah, que apresentou sua mais recente obra, um relato sobre os destinos de três mulheres submetidas à violência doméstica, em uma mesa do programa principal da Flip, realizada na sexta-feira (24).

Nathacha Appanah, com uma obra marcada pela investigação das violências íntimas e sociais, define seu livro "Noite no coração" (Bazar do Tempo), que foi traduzido e publicado em mais de 15 países, como uma tentativa de romper o silêncio sobre questões profundas. As personagens da narrativa têm origem em histórias reais, incluindo a própria autora, e as outras duas foram assassinadas por seus companheiros.

"Tudo isso estava contido neste livro e que sobretudo havia nele a tentativa de uma escritora de colocar adiante a linguagem e sua própria condição", disse Nathacha durante o evento. Essa afirmação ressalta a profundidade da obra, que não se limita a um relato, mas se expande em um romance reflexivo.

A autora compartilhou que, ao começar a produzir o livro há mais de cinco anos, tinha plena consciência de que se tratava de uma obra primordialmente sobre o tempo. "Eu tinha a impressão de que a única coisa que eu poderia fazer como objetivo literário seria contrair o tempo, fazer com que três mulheres que jamais se encontraram ou conheceram existissem no mesmo local, trazer essas três existências pra dentro do livro."

Nascida nas Ilhas Maurício, em uma família de imigrantes indianos que se radicou na França, Nathacha explicou como a ideia de deslocamento e migração marca sua vida e sua escrita. "O que eu aprendi antes dos deslocamentos, antes do que é deslocamento, é que nenhuma língua é superior às outras. Havia a língua do coração, da intimidade, da escola. Havia a língua que nós falamos com um vizinho específico, uma língua de sedução", comentou.

"E todas essas línguas na minha casa, na minha vida, formavam uma espécie de existência. As Ilhas Maurício ficam muito longe de tudo, e nessa casa estranha - eu digo estranha, mas era muito bela - eu tinha a impressão de ter o mundo ao meu alcance", concluiu. A relação com suas raízes e o impacto das diferentes gerações em sua formação foram temas centrais em sua fala.

A escritora mencionou que morava com seus pais e avós, duas gerações que já apresentavam diferenças importantes entre elas, influenciando sua vivência. "Meus avós eram pessoas que nasceram e viveram numa plantação de cana-de-açúcar na era colonial. Eles falavam uma língua indiana, que é minha língua materna", compartilhou.

"E, ao lado dos meus pais, que eram pessoas instruídas, que frequentavam a escola, que trabalhavam, eu tinha a impressão de viver como num fio que se estendia entre um passado que eu jamais havia conhecido, mas cujas histórias chegavam até mim porque minha avó contava muitas coisas, ela me falava em várias línguas. Por outro lado, havia meus pais que viviam numa modernidade voltada para o exterior, para fora", acrescentou Nathacha.

Na mesma mesa, estava também a brasileira Bethânia Pires Amaro, que em sua obra "Ressalga" (Record) aborda o tema da violência de gênero por meio da narrativa de três gerações de mulheres na Bahia. Bethânia trouxe à discussão a importância de representar essas histórias em um contexto que muitas vezes é silenciado.

Para narrar a vida de suas personagens, Bethânia mencionou que uma das ferramentas que utiliza é o realismo mágico. "O realismo mágico acaba trazendo um olhar muito rico e muito particular que permite uma aproximação um pouco mais indireta. E que vai brincar um pouco também com essa imaginação do leitor, vai mostrar, por exemplo, essas mulheres não reduzidas àquelas violências, mas como seres que realmente estão florescendo", disse ela, ressaltando a complexidade das vivências narradas em sua obra.

A participação de Nathacha Appanah e Bethânia Pires Amaro na Flip 2026 trouxe à tona questões relevantes sobre a violência e a realidade das mulheres, evidenciando a potência da literatura como forma de resistência e reflexão. Ambas as autoras, com suas experiências e narrativas, nos convidam a olhar mais de perto para histórias que muitas vezes ficam à margem da sociedade.

A equipe de reportagem viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.

---

Fonte (canonical): https://www.newqueercinema.com.br/analises-e-criticas/escritora-nathacha-appanah-um-destaques-internacionais-flip/
