# Evento de arte e tecnologia alfineta com bordado e IA

> O Sesi Lab, em Brasília, apresenta a instalação de arte e tecnologia de Regina Silveira com um vinil de 530 metros quadrados coberto por agulhas e bordados em ponto de cruz inacabados. A obra reacende memórias de funcionários do museu e propõe reflexão sobre inteligência artificial sem tom apocalíptico.

*New Queer Cinema · Análises e Críticas · 15 de setembro de 2026 · Marlene Yoshida Cabral*

Vinil de 530 metros quadrados com agulhas e bordados em ponto de cruz inacabados abre a visitação no Sesi Lab, em Brasília, e reacende memórias de quem trabalha no museu. Regina Silveira fala sobre IA sem apocalipse.

A primeira vez que Kaliane Martins, potiguar de 40 anos, entrou em um museu foi para trabalhar. Mudou-se ainda criança para Brasília com a mãe, virou faxineira na vida adulta e há quatro anos conseguiu emprego no Sesi Lab, na área central da capital. Deixou a vassoura, virou agente de portaria e hoje observa as artes que surgem de todos os lados. A mais recente tocou a memória do bordado que aprendeu com a mãe e a avó.

A instalação Bordaduras, de Regina Silveira, é um vinil adesivo de 530 metros quadrados com imagem de agulhas e uma série de bordados em ponto de cruz inacabados, aplicado sobre os vidros do museu do Sesi Lab. A obra abre oficialmente à visitação do público nesta terça (15).

"Aprendi a bordar com a minha mãe e com minha avó. Vi as agulhas [da obra] e me fez recordar", diz Kaliane. Ela conta que teceu não apenas as próprias roupas e as dos três filhos adolescentes, mas também a própria vida. "Nunca foi fácil costurar cada dia de batalha", filosofou a agente de portaria em entrevista à Agência Brasil. Ficou entusiasmada ainda mais com a chegada da artista.

Regina Silveira, 87 anos, professora emérita da Universidade de São Paulo (USP), tem extensa carreira internacional e diz que o objetivo da obra é provocar reflexões. Contextualiza que os bordados estão historicamente ligados à alfabetização das mulheres, durante o Pré-Renascimento, quando elas se ocupavam em bordar letras em enxovais. "No meu percurso, os bordados em pontos de cruz completos ou malfeitos se conectam ao repertório de padrões gráficos que venho utilizando desde o novo milênio com o suporte de meios digitais para dialogar com arquiteturas diversas."

Em viagens para diferentes países, percebeu revistas que ensinavam a fazer figuras bordadas. Em alguns espaços da instalação, os pontos incompletos têm relação com a ideia de um processo em execução. Regina entende que essa é uma obra feminista por natureza. "Tem uma fatia do meu trabalho, nos anos 1980 e 1990, que trata da distorção dos objetos do cotidiano." Acrescenta que seus trabalhos têm viés provocador e político. "Essa agulha, por exemplo, tem os significados dela. Eu sempre respeito muito a liberdade de interpretação. A pessoa vai entender o que quiser. Eu tenho quatro agulhas espalhadas. As agulhas são mais ilusionistas."

Além da obra nos vidros, do lado de dentro um painel de LED exibe Dígito, trabalho que Regina criou nos anos 1980. A artista faz a palestra inaugural do 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia, evento que debate a interseção entre as duas áreas. Até domingo (20), o próprio Sesi Lab e o Museu Nacional de Brasília recebem eventos, obras e experimentos de 41 artistas de diferentes regiões do País.

Um dos temas que instiga artistas e pesquisadores é a interferência da inteligência artificial nas obras. Para Regina, o olhar não precisa ser apocalíptico. Ela se refere ao fato de que as tecnologias atuam com repertórios e memórias já existentes. "Nesse sentido, ela pode ajudar, mas não pode ajudar a criar ou a pensar."

A artista acrescenta que a IA pode facilitar a expansão, "mas que não implique em invenção. Invenção é própria do cérebro humano. Uma conexão inesperada entre dados que já estavam incorporados. Não é inspiração que cai do céu." Ela exemplifica que trabalha atualmente em um projeto de uma sombra de um objeto artístico. "Eu nunca tive uma posição negativa em relação às tecnologias." Para ela, é necessário conscientizar os mais jovens de que eles têm que, antes de tudo, manejar a linguagem. "Os meios estão subordinados às linguagens."

Uma das coordenadoras do evento, a artista e professora Suzete Venturelli, também concorda que deve haver atenção com o uso das tecnologias generativas na arte e que nada substitui a criatividade humana, em que pesem os benefícios de experimentações. "Muitos alunos nossos estão resistindo no uso. Experimentaram quando surgiram tecnologias e a gente percebeu que o banco de dados que eles usam tem um viés racista e eurocêntrico."

Para a professora, é necessário que a obra de arte alfinete a sociedade, inclusive as próprias tecnologias. É necessário que não se perca a capacidade de criar. Para lidar com a IA, será preciso, no entender dela, que se eduque para a sua boa utilização, que privilegie criatividade e bordar invenções.

Na porta do museu, o professor de circo tocantinense Gabriel Coelho, de 21 anos, ensaiava com malabares de pinos coloridos. Ao observar a obra no Sesi Lab, recordou que aprendeu com a mãe a costurar e a fazer crochê. "Eu arrumo todas as minhas roupas e calçados. Sou palhaço também. Lembrei, quando vi essa imagem, que desestresso com agulha e linha, e fico mais longe do celular."

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Fonte (canonical): https://www.newqueercinema.com.br/analises-e-criticas/evento-arte-tecnologia-alfineta-bordado-reflete-sobre-ia/
