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Filmes amizade queer: 11 obras sobre laços comunitários

ResumoA lista "Filmes amizade queer: 11 obras sobre laços comunitários" reúne produções como Paris Is Burning e Moonlight. Esses filmes retratam a amizade queer como um ato político de sobrevivência. As obras mostram laços comunitários que desafiam a solidão e criam genealogias afetivas fora da heteronorma, destacando a resistência e a construção de redes de apoio.

A amizade queer no cinema não é pano de fundo, mas sim um ato político de sobrevivência. De Paris Is Burning a Moonlight, estes 11 filmes mostram como laços comunitários desafiam a solidão e criam genealogias afetivas fora da heteronorma.

Tarsila Wenceslau Dummar
Tarsila Wenceslau Dummar Pesquisadora de cinema e estudos de gênero · 13 de julho de 2026
Discutir representação queer: guia prático para conversas
9.0/10
VereditoA amizade queer no cinema não é pano de fundo, mas sim um ato político de sobrevivência. De Paris Is Burning a Moonlight, estes 11 filmes mostram como laços comunitários desafiam a solidão e criam genealogias afetivas fora da heteronorma.

A amizade queer no cinema nunca foi um mero adereço narrativo. Antes de Stonewall, quando o afeto entre pessoas do mesmo sexo era criminalizado, a amizade funcionava como rede de sobrevivência. No cinema, esse laço comunitário aparece ora como refúgio contra a violência heteronormativa, ora como espaço de criação de novas linguagens afetivas. Os 11 filmes a seguir não tratam a amizade como preparação para o romance, mas como um fim em si mesma, um gesto político que desafia a lógica individualista. Selecionamos obras que, de 1990 a 2022, constroem genealogias de solidariedade queer, cada uma à sua maneira.

1. Paris Is Burning (1990)

Jennie Livingston registrou a cena ballroom de Nova York nos anos 1980, onde jovens negros e latinos LGBTQIA+ formavam "casas", famílias escolhidas que ofereciam abrigo, treinamento e afeto. O documentário mostra como a competição por troféus era, na verdade, um exercício de sobrevivência comunitária. A casa de Xtravaganza, por exemplo, acolheu garotos expulsos de casa. Livingston filmou por seis anos, capturando a criação de uma linguagem própria ("voguing", "shade") que hoje é mainstream, mas que nasceu da necessidade de pertencimento.

2. The Watermelon Woman (1996)

Cheryl Dunye dirigiu e estrelou este marco do New Queer Cinema, onde a protagonista Cheryl investiga uma atriz negra dos anos 1930 apagada pela história. A amizade com a amiga Tamara (Valerie Walker) é o motor da busca: juntas, elas discutem política racial, desejo e arquivo. Dunye quebra a quarta parede e insere a própria vida no filme, mostrando que a amizade queer não é apenas pessoal, mas um método de pesquisa histórica. Foi o primeiro longa dirigido por uma lésbica negra a ter distribuição nacional nos EUA.

3. Tomboy (2011)

Céline Sciamma dirige a história de Mikael/Laurie, uma criança de 10 anos que se apresenta como menino ao se mudar para um novo bairro. A amizade com Lisa, a vizinha, é o centro do filme: não há conflito melodramático, apenas a descoberta tátil de confiança. Sciamma filma os corpos em movimento, jogando futebol, nadando, sem nunca patologizar a identidade de gênero. A cena final, com a mãe de Laurie confrontando a situação, é resolvida não com punição, mas com o silêncio cúmplice da amizade infantil.

4. Moonlight (2016)

Barry Jenkins divide a vida de Chiron em três atos, e em cada um a amizade masculina queer aparece como tábua de salvação. No primeiro ato, Juan (Mahershala Ali) ensina o menino a nadar, oferecendo um modelo de cuidado paterno não biológico. No segundo, Kevin é o único amigo que toca Chiron sem violência. Jenkins baseou-se na peça de Tarell Alvin McCraney, que cresceu em Liberty City, Miami. A cena da praia, com a maré iluminando os dois corpos, é uma das mais citadas da década.

5. Tangerine (2015)

Sean Baker filmou com iPhone 5S as andanças de Sin-Dee e Alexandra, duas trabalhadoras sexuais trans em Los Angeles. O Natal é o pano de fundo para uma amizade que sobrevive a traições, brigas e donuts. Mya Taylor e Kitana Kiki Rodriguez, ambas atrizes trans, improvisaram grande parte dos diálogos. Baker capturou a comunidade trans de rua sem filtro de pena ou exotismo. A cena final, com Alexandra cantando em um bar vazio enquanto Sin-Dee a observa, é um testemunho de lealdade que dispensa palavras.

6. The Kids Are All Right (2010)

Lisa Cholodenko dirige um casal de lésbicas (Annette Bening e Julianne Moore) e seus dois filhos adolescentes. A amizade não é entre as protagonistas, mas entre os irmãos Laser e Joni, que enfrentam juntos a chegada do doador de esperma. Cholodenko, que é lésbica, escreveu o roteiro a partir de sua experiência. O filme evita o didatismo: o laço entre os irmãos é o que sustenta a estrutura familiar, mesmo quando os adultos vacilam. Foi indicado ao Oscar de Melhor Filme.

7. Weekend (2011)

Andrew Haigh acompanha Russell e Glen, que passam um fim de semana juntos após um encontro casual. A amizade que nasce entre eles é mais importante que o sexo: Glen grava conversas para um projeto de arte sobre experiências gays, e Russell, ainda não assumido, encontra em Glen a primeira pessoa com quem pode falar sem máscaras. Haigh filmou em Nottingham com orçamento mínimo, e o longa influenciou o tom de séries como Looking. O último take, com Russell na plataforma do trem, é um estudo sobre a solidão que a amizade queer temporariamente alivia.

8. Aquelas Pessoas (2015)

Joey Kuhn dirige a história de Sebastian e David, dois amigos gays em Nova York que lidam com HIV, classe social e segredos. O filme se destaca por não romantizar a amizade: há ciúmes, ressentimento e uma cena de sexo que tensiona os limites do afeto. Kuhn baseou-se em suas próprias experiências pós-faculdade. A crítica notou que o filme evita o clichê do "melhor amigo gay" para mostrar como a amizade queer pode ser tão complicada quanto qualquer romance.

9. Carol (2015)

Todd Haynes adapta o romance de Patricia Highsmith, ambientado nos anos 1950. Embora o foco seja o romance entre Carol (Cate Blanchett) e Therese (Rooney Mara), a amizade de Therese com a colega de trabalho Dannie (John Magaro) oferece um contraponto. Dannie sabe do relacionamento e não julga, um gesto raro para a época. Haynes consultou a historiadora Lillian Faderman para garantir precisão histórica. A amizade entre as duas mulheres não é central, mas mostra que o apoio comunitário existia mesmo antes do movimento organizado.

10. Garotos (2014)

O documentário de Luís Ferroni e Lucas M. O. segue um grupo de amigos gays em São Paulo durante um fim de semana. Sem roteiro, o filme capta conversas sobre sexo, política e afeto em tempo real. Ferroni optou por não mostrar os rostos dos entrevistados, criando uma intimidade sonora. O longa foi exibido em festivais LGBTQIA+ e gerou debate sobre a invisibilidade de amizades gays no cinema brasileiro. A cena em que um dos garotos chora ao falar do amigo que morreu de AIDS é um lembrete de que a comunidade queer também é feita de luto compartilhado.

11. O Homem com as Respostas (2021)

Stelios Kammitsis dirige Viktor, um ex-campeão de mergulho que aceita dar carona a Markos, um jovem que visita a avó. A amizade improvável entre os dois, um grego de meia-idade e um cipriota mais jovem, se desenvolve em uma viagem pela Grécia. O filme evita o romance fácil: a amizade é construída em silêncios e gestos mínimos. Kammitsis disse em entrevista que queria mostrar "homens que se tocam sem medo". A trilha sonora de Michalis Delta reforça a atmosfera de cura lenta.

Qual filme escolher?

Se você busca um ponto de partida histórico, comece com Paris Is Burning, que é a matriz de muitas dessas narrativas. Para uma experiência contemporânea e sensorial, Moonlight ou Tangerine oferecem retratos de resistência cotidiana. Se prefere um olhar brasileiro, Garotos é uma raridade documental. Para quem quer algo mais leve, O Homem com as Respostas equilibra humor e afeto. Nenhum desses filmes trata a amizade como complemento, eles a colocam no centro, como o que realmente nos sustenta.

FAQ

Qual é o melhor filme sobre amizade queer?

Não há um único "melhor", mas Paris Is Burning (1990) é frequentemente citado como marco por documentar a criação de famílias escolhidas na cena ballroom. Moonlight (2016) também é referência por sua abordagem sensível da masculinidade negra queer.

O que define um filme de amizade queer?

Um filme de amizade queer centraliza laços afetivos não românticos entre pessoas LGBTQIA+, mostrando como essas relações funcionam como redes de apoio, sobrevivência e criação de comunidade, muitas vezes em contextos de marginalização.

Existem filmes brasileiros sobre amizade queer?

Sim. Garotos (2014), de Luís Ferroni e Lucas M. O., é um documentário que acompanha amigos gays em São Paulo. Outro exemplo é Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014), que, embora foque no romance, também explora a amizade entre Leonardo e Giovana.

A amizade queer é diferente da amizade heterossexual no cinema?

Em geral, filmes de amizade queer frequentemente abordam temas como segredo, luto coletivo (especialmente pela AIDS) e a criação de famílias escolhidas, algo menos comum em narrativas heterossexuais, que tendem a tratar amizade como subplot.

Quais diretores são referência nesse tema?

Jennie Livingston (Paris Is Burning), Cheryl Dunye (The Watermelon Woman), Céline Sciamma (Tomboy), Barry Jenkins (Moonlight) e Andrew Haigh (Weekend) são nomes centrais. Todos trazem perspectivas autobiográficas ou históricas para o tema.

Onde assistir a esses filmes?

Disponibilidade varia. Paris Is Burning está no YouTube e no Criterion Channel. Moonlight está na Netflix e no Prime Video. Tangerine está no Prime Video. Garotos está em festivais e plataformas independentes. Verifique catálogos locais.

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