Crítica · Análises e Críticas

Flip 2026: Orides Fontela é poeta universal na abertura

ResumoA 24ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) abriu em 2026 com homenagem a Orides Fontela. O crítico Augusto Massi definiu Orides Fontela como poeta universal, destacando a fragilidade e força da obra. A mesa, com a poeta Marília Garcia, explorou a trajetória de Orides Fontela, da formação católica à influência do zen budismo.

Na abertura da 24ª Flip, o crítico literário Augusto Massi definiu Orides Fontela como poeta universal, destacando sua fragilidade e força. A mesa contou com a poeta Marília Garcia e explorou a trajetória da escritora, desde a formação católica até a influência do zen budismo.

Cássio Drummond Belforte
Cássio Drummond Belforte Programador de cineclube e divulgador de cinema autoral · 23 de julho de 2026
Flip 2026: Orides Fontela é poeta universal na abertura
7.7/10
VereditoNa abertura da 24ª Flip, o crítico literário Augusto Massi definiu Orides Fontela como poeta universal, destacando sua fragilidade e força. A mesa contou com a poeta Marília Garcia e explorou a trajetória da escritora, desde a formação católica até a influência do zen budismo.

Abertura da Flip 2026 consagra Orides Fontela como poeta universal

Na noite dessa quarta-feira (22), o auditório lotado da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) ouviu uma definição que promete ecoar por toda a programação: Orides Fontela é uma poeta universal. Quem disse foi o crítico literário Augusto Massi, amigo e editor da escritora, durante a mesa de abertura, que contou também com a poeta Marília Garcia. A poeta é a homenageada do evento, que segue até domingo (26) em diversos espaços do centro histórico da cidade.

Orides Fontela foi definida como poeta universal pelo crítico Augusto Massi na abertura da 24ª Flip. Massi destacou a dualidade da poeta: frágil e forte, alucinada e lúcida. A trajetória inclui cinco livros, prêmio Jabuti com Alba e influências do zen budismo em Rosácea.

A travessia pela poesia de Orides

Massi, crítico literário e professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP), conduziu a plateia como se levasse "o leitor pela mão" ao cruzar uma ponte, em uma travessia para o outro lado de um rio. A ideia era aproximar o público da poesia de Orides, revelando camadas que vão além do anedotário que cerca a figura da poeta.

Formação e influências

Na apresentação, Massi destacou elementos que atravessam o trabalho da escritora: a formação católica, a cultura greco-romana, os estudos em filosofia e, mais tarde, a experiência no zen budismo, quando há uma abertura às influências do Oriente. Essa diversidade de referências ajuda a entender por que ele a define como universal.

Os cinco livros e o Prêmio Jabuti

Ao longo da carreira, Orides publicou cinco livros de poesia: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996). Foi com Alba, que tem prefácio do crítico Antonio Candido, que ela ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Poesia.

O giro pessoal em Rosácea

Massi apontou um momento decisivo na obra de Orides: o livro Rosácea. "Em Rosácea, vem um poema muito conhecido dela, dos mais antológicos. Ela começa um caminho novo, não só pela [influência do zen budismo], mas é a primeira vez que ela fala da vida pessoal dela", relatou. O poema Herança é exemplar: "'da avó materna, uma toalha (de batismo)'. Esse 'de batismo', entre parênteses, também é importante, porque ela está dizendo quase as origens dela", apontou Massi.

Ao longo do poema, após falar da avó, Orides traz uma lista de objetos "do pai" e "da mãe": um martelo, duas chaves, um caldeirão e um lenço. "Não tem verbo, são coisas. É uma herança concreta de alguém de uma família pobre. É como se dissesse: 'a pobreza, na Orides, é a sua riqueza'. Tudo que ela reduz vira alguma coisa que se irradia de sentido", concluiu Massi.

A mudança de voz poética

O professor ressaltou que, até aquele momento, nas obras anteriores, Orides utilizava especialmente formas geométricas, abstratas, mitos e usava uma espécie de interlocutor que falava por ela nos versos. "Ela falava através da Penélope, da Rebeca, através de São Sebastião, agora ela fala dela", disse Massi, citando referências dos poemas de Orides.

A poesia visual e a pontuação como flecha

Massi mencionou ainda a relevância da pontuação e dos sinais gráficos que ela utilizava para a construção dos poemas. "O gosto da Orides é por uma poesia visual e plástica, o gosto pela imagem." Um exemplo é o poema São Sebastião, que faz referência a um soldado romano que protegia os cristãos perseguidos pelo império. Como punição, ele é amarrado e alvejado por flechas. "No poema, a Orides, como sinais de pontuação, usa o travessão. O travessão já são as setas atravessando as palavras, o corpo do texto", analisou Massi.

Teia: o livro da maturidade e da despedida

O último livro, Teia, foi publicado dez anos depois do anterior. "Ela demorou para fazer esse livro, é um livro em que ela parece que sente o fim, ela sente que a morte está chegando para ela", relatou Massi. Ele fez um contraponto entre os poemas Teia, que dá nome ao livro, e Coruja, publicado em Rosácea. "Não é mais a coruja, que é a caçadora, que é aquela que vai e abate. Essa poética ferina e cruel da primeira Orides. Essa teia é outra, ela fala que 'arma, armadilha' e que no centro da teia 'a aranha espera'."

O último poema: Estrela da Tarde

Ao fim da apresentação, o professor citou o último poema do livro Teia. "É o último poema que ela publicou em vida: Estrela da Tarde." Ele explica: "Agora que ela vai morrer, que ela sabe que vai morrer, ela está escolhendo a estrela da tarde, a que brilha mais forte. E é uma que não precisa nem da alba [amanhecer], nem da noite. Ela é a primeira a brilhar antes da noite chegar e com muita intensidade."

Onde acompanhar a Flip 2026

A programação da 24ª Flip segue até domingo (26), em diversos espaços no centro histórico de Paraty. Para quem não pode estar presente, a cobertura continua nos canais oficiais do evento e da imprensa.

Perguntas Frequentes

Quem foi Orides Fontela?

Orides Fontela foi uma poeta brasileira, homenageada da 24ª Flip, autora de cinco livros de poesia e vencedora do Prêmio Jabuti com Alba.

O que Augusto Massi disse sobre Orides na abertura da Flip?

Massi a definiu como "poeta universal", destacando sua dualidade: frágil e forte, alucinada e lúcida. Ele conduziu o público por sua trajetória literária.

Quais são os livros de Orides Fontela?

Ela publicou Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996).

Qual a importância do poema Herança na obra de Orides?

É o primeiro poema em que ela fala abertamente da vida pessoal, listando objetos herdados da família, como um martelo, duas chaves, um caldeirão e um lenço.

Como a pontuação aparece na poesia de Orides?

Massi destacou o uso do travessão no poema São Sebastião, que funcionam como flechas atravessando o corpo do texto, reforçando a poesia visual.

A equipe de reportagem viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.

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