Participação feminina na direção de filmes segue abaixo de 20%
Mulheres são maioria entre formados em audiovisual e no público, mas ocupam apenas 17% da direção de séries e filmes no Brasil. Produtora defende políticas públicas com metas claras para mudar o cenário até 2030.
O plano que abre o filme
Eu começo este texto do mesmo jeito que começaria um documentário: enquadrando o que não está na tela. A câmera encontra uma sala cheia de mulheres, todas com formação em audiovisual, todas com histórias para contar. O plano seguinte, porém, mostra outra coisa: nos créditos finais dos longas brasileiros, o nome delas aparece pouco na direção.
A participação feminina na direção de filmes permanece abaixo de 20%, mesmo com as mulheres sendo maioria entre os que se formam em cursos audiovisuais e entre o público que lota as salas. O cenário foi tema de debate no festival Bonito CineSur, no último domingo, e mobiliza quem pensa o cinema como espaço de escuta e de responsabilidade.
O número que não fecha
Os dados são do Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro de 2024, do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA), publicado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). Eles mostram que as mulheres são maioria na exibição (58%) e na distribuição (54%), mas representam apenas 17% da direção de séries e filmes brasileiros.
O anuário revela ainda que, dos longas-metragens produzidos em 2023, 231 foram dirigidos exclusivamente por homens e apenas 52 por mulheres. No roteiro, o domínio masculino se repete: 165 contra 41. Já na direção de arte, as mulheres lideram: 99 contra 57. Na produção executiva, 110 contra 66.
A produtora Minom Pinho, diretora da Associação Paulista de Cineastas (Apaci) e coordenadora do Festival Internacional de Mulheres no Cinema (FIM Cine), aponta que esses números revelam um lugar socialmente convencionado. "Esse é o lugar que a sociedade convencionou que é o nosso lugar, o lugar das mulheres. Temos aí a direção de arte ou figurino, por exemplo, porque 'arte é coisa de mulher'. Isso é um estereótipo absurdo", afirma.
O que os números não explicam
Minom defende que não há justificativa técnica para a baixa participação. "Ninguém pode alegar que as mulheres não têm competência. Elas estão fazendo um milagre. Foi dado a elas 20% [de cargos de liderança] nos filmes, mas elas estão pegando 44% do mercado", enfatiza. Ou seja, com menos espaço, elas conquistam mais público.
A produtora ressalta que o cinema precisa de mais mulheres na condução das narrativas. "A gente quer estar em todos os lugares. Mas quando você tem uma ideia, escreve essa história e tem uma mulher dirigindo essas histórias e escolhendo as imagens que vão configurar naquela peça ou naquela obra audiovisual, isso faz muita diferença", diz.
Política pública como caminho
Para Minom, a mudança só virá por meio de políticas públicas. "As grandes mudanças se fazem com política pública", ressalta. "E para você alcançar a política pública, você tem que ter indicador e indutor. Por exemplo, estipular que o número de mulheres em roteiro e direção em longas-metragens deve bater 30% até 2030."
A meta, segundo ela, precisa ser clara porque o cinema é uma zona de resistência. "A gente vai ter que entender que é preciso estabelecer metas mais claras porque o cinema é uma zona de resistência muito grande." O sonho declarado é alcançar equidade nos próximos 10 anos. "Meu sonho é que a gente saia desse atual patamar."
A escuta antes da câmera
No Bonito CineSur, uma mesa debateu o protagonismo feminino no cinema sul-americano. Além de Minom, participaram a atriz chilena Paulina Garcia e Gabriela Sandoval, diretora e produtora de indústria do Festival Internacional de Cinema de Santiago (Sanfic).
Paulina defendeu histórias mais complexas para mulheres. "Para as mulheres, existem mais coisas do que desempenhar papéis de pessoas doentes ou que morrem a certa idade. Também há mais coisas do que se apaixonar por um homem mau ou um homem perdido ou ser filha de alguém. Precisamos contar com histórias mais complexas sobre quem somos ou sobre o que queremos fazer."
Gabriela reforçou a importância da união entre mulheres do continente. "Creio que essa construção de uma rede é importantíssima. Quando se fala em mulheres em espaços de poder, sempre se vê como algo negativo. Mas o espaço de decisão é uma responsabilidade e abre caminhos para que se contem outras histórias."
A ética do registro
O que esses depoimentos têm em comum é a percepção de que a baixa participação feminina na direção não é um acidente de percurso. É uma escolha repetida, ano após ano, que se materializa em números frios. A pergunta que fica, para quem filma a vida real, é: de quem é a mão que decide o enquadramento?
Minom lembra que as mulheres são maioria na formação e no público, mas continuam fora dos postos de decisão. A saída, para ela, passa por indicadores e metas, não por discurso. Enquanto isso, o mercado mostra que, mesmo na pior situação possível, as mulheres entregam resultado.
Perguntas Frequentes
Por que a participação feminina na direção de filmes continua abaixo de 20%?
Segundo a produtora Minom Pinho, falta política pública com metas claras. Dados do Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro de 2024 mostram que as mulheres ocupam apenas 17% da direção de séries e filmes, apesar de serem maioria na formação e no público.
Qual é a meta proposta para aumentar a participação feminina?
Minom defende estipular que o número de mulheres em roteiro e direção em longas-metragens alcance 30% até 2030, como forma de induzir mudanças estruturais no setor.
O que os dados da Ancine mostram sobre a presença feminina no audiovisual?
As mulheres são maioria na exibição (58%) e na distribuição (54%), mas representam apenas 17% da direção. Em 2023, 231 longas foram dirigidos por homens e 52 por mulheres; no roteiro, 165 contra 41.
Como aumentar a presença feminina na direção de filmes?
Além de políticas públicas com metas, o fortalecimento de redes entre mulheres do continente, como defende Gabriela Sandoval, é apontado como caminho para abrir espaços de decisão e contar outras histórias.
O que diz a atriz Paulina Garcia sobre os papéis femininos no cinema?
Ela defende histórias mais complexas, que não reduzam as mulheres a papéis de doentes, vítimas ou apaixonadas por homens problemáticos.
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