# Primeiros poemas da juventude já revelavam grandeza de Orides Fontela

> Os primeiros poemas da juventude de Orides Fontela, escritos na adolescência em São João da Boa Vista, já demonstravam concisão e rigor poético. A poeta, homenageada na Flip, recebeu apoio inicial de Davi Arrigucci Jr., Antonio Candido e Marilena Chaui, consolidando uma obra marcada pela precisão formal.

*New Queer Cinema · Análises e Críticas · 22 de julho de 2026 · Marlene Yoshida Cabral*

Os primeiros poemas de Orides Fontela, escritos na adolescência em São João da Boa Vista, já revelavam a concisão e o rigor que marcariam sua obra. Homenageada na Flip deste ano, a poeta teve o apoio de Davi Arrigucci Jr., Antonio Candido e Marilena Chaui desde o início.

## Primeiros poemas da juventude já revelavam grandeza de Orides Fontela

Os primeiros poemas de Orides Fontela, escritos na adolescência em São João da Boa Vista, no interior paulista, já revelavam a concisão e o rigor que marcariam sua obra. Homenageada na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, a poeta teve o apoio de Davi Arrigucci Jr., Antonio Candido e Marilena Chaui desde o início.

## O poema que mudou tudo

Em 1965, o poema _Elegia_ foi publicado no jornal local _O Município_. Foi ali que Davi Arrigucci Jr., conterrâneo de Orides que estudava letras na época, percebeu a grandeza que se anunciava. Hoje crítico literário e professor aposentado de teoria literária da Universidade de São Paulo (USP), ele a incentivou a reunir os poemas em livro e a se mudar para a capital paulista.

"Ele encontrou com Orides, casualmente, ali na cidade e falou: 'Você tem mais coisa? Deixa eu ver'. E ela mostrou uma pasta de poemas dela. Ele achou aquilo muito bom, levou para São Paulo e deu na mão de críticos", contou Cristina Yamazaki, editora da Hedra, que trabalhou na recente reedição das obras da poeta.

## Uma poeta pronta desde o início

Desde o início de sua carreira, Orides teve entusiastas como o crítico literário Antonio Candido e a filósofa Marilena Chaui, que depois seria sua professora no curso de filosofia da USP. Filha de um marceneiro e de uma dona de casa, foi alfabetizada pela mãe.

"Ela surgiu como uma poeta pronta. Ela tem cinco livros, e não é que ela tenha uma progressão entre os livros. Desde o primeiro livro, que são esses poemas de juventude, ela já era reconhecidamente uma grande poeta, apesar de não ser conhecida do grande público", ressaltou, em entrevista à Agência Brasil.

## A linguagem como núcleo do silêncio

Com poucas palavras, Orides construiu poemas que carregam múltiplos significados, com densidade poética e filosófica. "Antonio Candido, por exemplo, usou uma expressão que se repetiu bastante [sobre sua obra], que é 'parcimoniosa opulência'. Ela consegue produzir muito significado com poucas palavras."

"Ela vai depurando a linguagem até chegar ao âmago da palavra, ela vai fazendo muitas experimentações até levar a gente para [uma espécie de] um núcleo do silêncio. O silêncio é muito importante na obra dela. Ele faz parte, ele também constitui os poemas", relatou Cristina. "Ela tem um poema tão bonito em que ela fala de saber de cor o silêncio. É isso, ela não quer profanar o silêncio com quaisquer palavras. E ela é muito precisa", acrescentou.

## Filosofia e poesia: a leitura de Kant

A formação de Orides em filosofia também é uma referência nos seus poemas. "Ela escreveu um poema chamado _Kant (relido)_, em que ela faz uma leitura poética do Kant", lembrou a editora. Ela ressaltou que a poesia de Orides não incorpora elementos autobiográficos, sua escrita não era voltada para uma dimensão de vida pessoal.

## Lançamentos na Flip e reedição das obras

Para celebrar a obra e o legado de Orides, haverá três lançamentos durante a Flip: de um livro de poemas da autora ilustrado para crianças e jovens, de uma coletânea inédita de escritos críticos e entrevistas, além da nova edição - revista e ampliada - da biografia da poeta, todos pela editora Hedra.

A Hedra detém os direitos das obras já publicadas da poeta e lançou nova edição de todas elas nos últimos meses. Ao longo de sua carreira, Orides publicou cinco livros de poesia: _Transposição_ (1969), _Helianto_ (1973), _Alba_ (1983), _Rosácea_ (1986) e _Teia_ (1996). Com _Alba_, que tem prefácio do crítico Antonio Candido, ela ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Poesia.

## O trabalho de pesquisa e os originais espalhados

Cristina Yamazaki conta que, além da organizadora das edições, Ieda Lebensztayn, houve um trabalho conjunto com Augusto Massi, que foi amigo e editor de Orides. "Fizemos uma pesquisa de manuscritos, datiloscritos, materiais que a gente pudesse incluir nas obras. Encontramos, por exemplo, anotações do Antonio Candido em um poema que ela incorporou depois. Ela teve leitores superespeciais."

A equipe também conseguiu imagens que não tiveram tanta circulação. Os retratos de Orides acabaram se repetindo nas divulgações, com registros especialmente da década de 1990. "Fomos atrás de coisas dela de infância, da juventude, todo material que pudéssemos. Mas sem carregar demais as obras porque também não são obras para críticos, é para um grande público."

Uma curiosidade é que alguns originais de Orides estavam espalhados em diversas mãos. "Isso porque, como às vezes ela não encontrava editora para publicar os poemas, ela fazia cópias e eles circulavam entre algumas pessoas. Então, algumas pessoas têm esses originais ou têm cópias", relatou Cristina.

## O valor de cada livro individualmente

"Cada livro dela era muito pensado, por isso que a Hedra quis fazer essas edições avulsas, que nunca mais tinham sido publicadas [desde a morte da escritora]. Só durante a vida da Orides, ela publicou esses cinco livros que tiveram circulação pequena, em edições simples", mencionou. Após a morte da poeta, houve apenas publicações com a poesia toda reunida, diferentemente do que a própria Orides idealizou em vida.

Cristina ressalta que, dessa forma, é possível valorizar o modo de produção de Orides. "Cada livro dela foi muito pensado, a ordem dos poemas, as partes. Ela sempre começa com um poema que anuncia o tema daquele volume, e ela sempre termina com um poema que trata do silêncio. Isso fica mais claro quando vemos cada obra individualmente", explicou.

## Caleidoscópio: a chave para entender Orides

Para Ieda Lebensztayn, organizadora das novas edições, o poema _Caleidoscópio_, do livro _Helianto_, é central para entender a poesia e a vida de Orides. "Etimologicamente, a palavra caleidoscópio é o olhar em busca de uma forma de beleza. _Kalós_, como na palavra caligrafia, significa belo; _eidos_ é forma, figura; e _skopeîn_, como em telescópio, denota ver, observar", analisou.

Tal definição, afirmou Ieda, é a própria ideia de poesia para Orides, feita com imagens de espelhos, estrelas, luzes e silêncios, que se organizam artisticamente e sempre se recombinam em novos versos.

"Como diz Orides em entrevista a Augusto Massi, Flávio Quintiliano e José Maria Cançado: 'E o maior bem possível foi sempre a poesia'. No contexto da entrevista, o apego de Orides à liberdade de fazer poesia tem por contraparte sua situação social precária, que fala também das dificuldades enfrentadas por intelectuais num mundo mercadológico, e aponta a dimensão ética e política da arte ante os limites da realidade", mencionou.

## O peso dos rótulos e o reconhecimento tardio

Os rótulos e estereótipos atribuídos a Orides tiveram muita visibilidade, o que deixou o reconhecimento do valor literário de sua obra em segundo plano, por diversas vezes. O biógrafo da autora, Gustavo de Castro, faz essa crítica e relata que havia uma narrativa consolidada sobre Orides que deslocava o foco da poeta para uma personagem quase folclórica, descrita a partir de conflitos pessoais.

Cristina Yamazaki relatou que Orides tem uma história de vida de muita restrição e de dificuldades financeiras. "Isso acabou, às vezes, ganhando mais notoriedade do que a obra dela. Acho que isso atrapalhou [um reconhecimento mais amplo], inclusive, na época. Ser mulher, poeta, pobre, não se encaixar num padrão da sociedade: isso tudo prejudicou muito ela, o que não acontecia com os homens da literatura", disse a editora.

Para Cristina, a questão de gênero foi um fator que trouxe prejuízos a Orides, no contexto do machismo. "Tem os 'poetas malditos' [homens] que são admirados pela obra. No caso dela, num certo momento, a imprensa deu muito foco à mitologia em torno da vida dela e não pela obra."

## A homenagem na Flip e o futuro

A decisão da curadora Rita Palmeira de homenagear Orides Fontela na edição da Flip deste ano foi celebrada entre seus admiradores e profissionais que já conhecem profundamente seu trabalho.

"Foi uma escolha muito bonita para tornar a Orides conhecida, porque ela é muito conhecida entre os poetas. É como se ela fosse a poeta entre os poetas, sabe? Tem muita gente que já escreveu em homenagem a Orides", ressaltou Cristina, citando _O Nervo do Poema: Antologia para Orides Fontela_ (editora Relicário), que terá a segunda edição lançada durante a Flip.

## Perguntas Frequentes

### Quando Orides Fontela publicou seu primeiro poema?

O poema _Elegia_ foi publicado em 1965 no jornal _O Município_, quando ela ainda era adolescente em São João da Boa Vista.

### Quem descobriu Orides Fontela?

O crítico literário Davi Arrigucci Jr., conterrâneo de Orides, leu _Elegia_ no jornal local e a incentivou a reunir os poemas em livro e se mudar para São Paulo.

### Quantos livros Orides Fontela publicou?

Ela publicou cinco livros de poesia: _Transposição_ (1969), _Helianto_ (1973), _Alba_ (1983), _Rosácea_ (1986) e _Teia_ (1996).

### Orides Fontela ganhou o Prêmio Jabuti?

Sim, ela ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Poesia com o livro _Alba_, que tem prefácio do crítico Antonio Candido.

### O que será lançado na Flip sobre Orides Fontela?

Três lançamentos: um livro de poemas ilustrado para crianças e jovens, uma coletânea inédita de escritos críticos e entrevistas, e a nova edição revista e ampliada da biografia da poeta, todos pela editora Hedra.

### Por que Orides Fontela não foi mais reconhecida em vida?

Segundo a editora Cristina Yamazaki, os rótulos de "mulher, poeta, pobre" e o foco da imprensa em sua mitologia pessoal, em vez da obra, prejudicaram seu reconhecimento, num contexto de machismo.

---

Fonte (canonical): https://www.newqueercinema.com.br/analises-e-criticas/primeiros-poemas-juventude-ja-revelavam-grandeza-orides-fontela/
