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Trilha sonora queer: por que a música define o olhar

ResumoA trilha sonora queer define o que pode ser visto e desejado em narrativas audiovisuais, funcionando como dispositivo que organiza o olhar sobre corpos dissidentes. Scores, canções e silêncios disputam a construção do desejo e da visibilidade, determinando quais afetos e identidades ganham espaço na cena.

A trilha sonora queer não ilustra cenas: ela decide o que pode ser visto e desejado. Um percurso por scores, canções e silêncios que disputam o olhar sobre corpos dissidentes.

Undine Sá Carolino
Undine Sá Carolino Ensaísta de cultura visual e teoria queer · 15 de setembro de 2026
Trilha sonora queer: por que a música define o olhar
8.4/10
VereditoA trilha sonora queer não ilustra cenas: ela decide o que pode ser visto e desejado. Um percurso por scores, canções e silêncios que disputam o olhar sobre corpos dissidentes.

A trilha sonora queer importa porque organiza o desejo na cena: decide o que soa como erótico, melancólico ou ameaçador. O som posiciona o espectador diante de corpos dissidentes antes que a narrativa explique qualquer coisa. Em Queer (2024), o score original de Trent Reznor e Atticus Ross faz exatamente isso: não acompanha a ação, mas instaura uma atmosfera de desejo suspenso. É por onde começo.

O que caracteriza uma trilha sonora queer?

Não existe fórmula única. Uma trilha sonora se torna queer quando desloca a função normativa da música no cinema clássico, aquela que sublinha o casal heterossexual como resolução. No score de Reznor e Atticus Ross para Queer, a orquestração evita o clímax romântico tradicional. Os temas se repetem com pequenas variações, criando um loop de expectativa que nunca se fecha. Essa recusa do fechamento é um gesto estético, não um acidente.

Por que Trent Reznor e Atticus Ross são citados na trilha sonora queer?

A dupla assina o score original de Queer, dirigido por Luca Guadagnino. A escolha de dois músicos vindos do industrial e do pós-punk para um filme baseado em William S. Burroughs não é neutra. O som carrega uma história de dissidência sonora, ruído e dissonância, que dialoga com a experiência queer de habitar o fora. Não se trata de "temática gay", mas de uma gramática sonora que já nasce desalinhada.

Como a música influencia a representação de corpos dissidentes?

A música decide o que o corpo pode ser na cena. Um mesmo plano de dois homens se tocando muda de sentido conforme o som: cordas suspensas sugerem ternura, sintetizadores cortantes sugerem perigo. Em Queer, a tensão entre desejo e repulsa é construída menos pelo diálogo e mais pela textura sonora. O espectador sente o corpo antes de entendê-lo.

A trilha sonora queer se limita a filmes com temática LGBTQIA+?

Não. O termo descreve um modo de escuta, não um gênero de catálogo. Um filme sem personagens assumidamente queer pode ter uma trilha que desorganiza a norma heterossexual da imagem. Penso em certos usos do silêncio, em que a ausência de música expõe o corpo ao desconforto do olhar. A pergunta não é quem aparece, mas como o som distribui desejo e poder na cena.

Como ouvir e analisar uma trilha sonora queer?

Comece pelo que a música faz com o tempo. Ela acelera, suspende ou arrasta a cena? Depois, observe o que ela recusa: o clímax, a resolução, o tema único. No score de Queer, a repetição com variação mínima é uma pista. Anote quando o som entra e quando sai. A saída costuma ser mais reveladora que a entrada.

Em resumo: a trilha sonora queer não decora a imagem, ela disputa o olhar. Ouve-se o desejo antes de vê-lo. E é nessa antecedência sonora que o corpo dissidente encontra espaço.

Perguntas frequentes

O que é trilha sonora queer?

É um modo de escuta e composição em que a música desorganiza a norma heterossexual da imagem. Não se define pelo tema do filme, mas pela forma como o som distribui desejo, tensão e recusa de resolução na cena, como no score de Queer (2024).

Quem compôs a trilha sonora de Queer (2024)?

Trent Reznor e Atticus Ross assinam o score original do filme dirigido por Luca Guadagnino. A dupla, conhecida pelo trabalho no Nine Inch Nails e por parcerias anteriores no cinema, trouxe uma textura industrial e suspensa que evita o clímax romântico convencional.

Qual a diferença entre trilha sonora e score original?

Trilha sonora costuma designar o conjunto de músicas usadas no filme, incluindo canções preexistentes. Score original é a música composta especificamente para a obra. Em Queer, o score de Reznor e Ross é original, enquanto canções de época podem integrar a trilha.

A música pode tornar uma cena queer mais ou menos estereotipada?

Sim. Uma trilha que sublinha o sofrimento com cordas melancólicas pode reforçar o estereótipo do queer trágico. Já uma trilha que recusa esse pathos, optando por dissonância ou silêncio, abre outro regime de visibilidade para o corpo dissidente.

Onde ouvir a trilha sonora de Queer?

O score original de Trent Reznor e Atticus Ross está disponível em plataformas de streaming como Spotify e Apple Music. O álbum reúne 16 faixas e foi lançado em 2024, acompanhando a estreia do filme.

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