# Tragédia familiar causada pelo césio-137 é contada em documentário

> O documentário "Lourdes e Leide", dirigido por Angelo Lima, reacende a memória da tragédia familiar causada pelo césio-137 em Goiânia, em 1987. A obra retrata a morte de Leide, de 6 anos, e outras vítimas após dois catadores encontrarem uma cápsula radioativa. O filme foi exibido no Bonito CineSur.

*New Queer Cinema · Streaming · 28 de julho de 2026 · Undine Sá Carolino*

Em 1987, dois catadores encontraram uma cápsula de césio-137 em Goiânia. O material radioativo causou a morte de Leide, de 6 anos, e outras vítimas. O documentário Lourdes e Leide, do diretor Angelo Lima, reacende a memória dessa tragédia familiar exibida no Bonito CineSur.

Há quase 40 anos, um brilho azul no escuro mudou para sempre a vida de uma família em Goiânia. No dia 13 de setembro de 1987, dois catadores de lixo, Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves, entraram no prédio abandonado do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), no centro da cidade. Lá, encontraram um equipamento de radioterapia que havia sido abandonado. Levaram o material para a casa de um deles. Removeram o lacre da cápsula e viram um pó semelhante a sal de cozinha, que emitia um intenso brilho azul no escuro. Era o césio-137, um material radioativo. Eles foram as primeiras vítimas do maior incidente radiológico da história do Brasil.

O documentário Lourdes e Leide, do diretor Angelo Lima, reacende a memória dessa tragédia familiar. Filmado no ano passado, o curta foi exibido no Festival Bonito CineSur, no Mato Grosso do Sul. A obra acompanha o cotidiano solitário de dona Lourdes, tomado pelas memórias da filha Leide, que morreu pela exposição ao césio aos 6 anos de idade.

## Como o césio-137 chegou à família de Lourdes

A substância radioativa chegou à casa de Lourdes e Leide alguns dias depois de ser encontrada no IGR. Sem saber a gravidade do que tinham em mãos, Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves decidiram vender o material para um ferro-velho que pertencia a Devair Alves Ferreira. Ele também ficou encantado com a luminosidade. Devair apresentou a descoberta para a esposa e distribuiu o material para familiares e amigos. Sem saber do perigo, as pessoas manipulavam o pó, o que causou sintomas imediatos como náuseas, tonturas, vômitos e diarreia.

O irmão de Devair, Ivo Ferreira, levou um pouco da substância para a filha, Leide das Neves. A menina ingeriu as partículas do césio. A gravidade da exposição fez com que ela morresse poucos dias depois, em 23 de setembro. Leide precisou ser enterrada em um caixão de chumbo de 700 quilos para conter a radiação que seu corpo ainda emitia. Além dela, outras três pessoas morreram entre quatro e cinco semanas após a exposição.

## A perda recente de Lucimar e o luto que não acaba

Nesta última semana, dona Lourdes perdeu mais um filho, Lucimar das Neves Ferreira. Ele tinha 14 anos quando o acidente com o césio ocorreu. "O Lucimar era um menino que foi internado [na época] e ganhou uma pensão também do Estado. Mas ele começou a beber muito e teve um enfisema pulmonar violento. Ela [Lourdes] está muito chocada", contou o diretor Angelo Lima à Agência Brasil.

Segundo o presidente da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio), Marcelo Santos Neves, a morte de Lucimar o fez relembrar dos dias difíceis provocados pelo acidente. "A gente se entristece porque, com essa perda, tudo relembra aqueles dias difíceis", disse Neves, em vídeo publicado nas redes sociais da associação. "Agora, a gente tem que dar o máximo de apoio possível, porque vai ser muito dolorido para ela, por mais que ela já esteja calejada com essas dores de perda da filha", completou.

## A culpa do Estado e o estigma social

Bastante emocionado, o diretor conversou com a reportagem da Agência Brasil logo após a exibição no Bonito CineSur. "Eu sempre culpo o Estado. Eu não vou culpar os catadores, nem vou culpar a família. Essa é uma tragédia que eles não tinham dimensão do que era. E alguma coisa precisa ser feita para reparar esses danos", disse Lima.

Para ele, a família de dona Lourdes já sofreu demais com esse episódio. "Essa é uma tragédia violenta. Essa família foi totalmente abalada. Naquela época, eles não podiam chegar na rua. As pessoas falavam: 'olha aí o pessoal do Césio' e trancavam as portas. Eles tiveram que se mudar várias vezes", contou. "Isso acaba com a vida de todo mundo. Destrói famílias", ressaltou.

## O documentário e a exposição no Bonito CineSur

O curta Lourdes e Leide foi exibido na noite de segunda-feira (27), no Bonito CineSur, festival que acontece até o próximo sábado (1º), na cidade de Bonito, Mato Grosso do Sul. Além da exibição, o festival promove uma pequena exposição de fotos que ajuda a contar a história do acidente com o césio-137. Entre as imagens, há fotos da pequena Leide e também do seu enterro. "No enterro da Leide, chegaram a jogar pedras", contou o diretor. "Naquela época, eles sofreram coisas muito fortes assim."

Em sua visão, essa tragédia "poderia acontecer com qualquer um" e, por isso, a sociedade brasileira precisaria estar mais preparada. "Eu acho que, em termos governamentais, nada mudou. As pessoas esqueceram disso rapidamente, porque quiseram esquecer rapidamente. E não tiveram humanidade", disse Lima.

## Perguntas Frequentes

### O que causou a tragédia do césio-137 em Goiânia?

Dois catadores de lixo encontraram uma cápsula de césio-137 abandonada no Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) e a venderam para um ferro-velho. O material foi distribuído a familiares e amigos, causando contaminação e mortes.

### Quantas pessoas morreram no acidente com o césio-137?

Além de Leide das Neves, de 6 anos, outras três pessoas morreram entre quatro e cinco semanas após a exposição. Recentemente, Lucimar das Neves Ferreira, que tinha 14 anos na época, também faleceu.

### Onde foi exibido o documentário Lourdes e Leide?

O curta foi exibido no Festival Bonito CineSur, no Mato Grosso do Sul, na noite de segunda-feira (27). O festival também promove uma exposição de fotos sobre o acidente.

### Quem é o diretor do documentário sobre o césio-137?

O diretor é Angelo Lima. Ele conversou com a Agência Brasil e afirmou que culpa o Estado pela tragédia, não os catadores ou a família.

### O que aconteceu com a família de Lourdes após o acidente?

A família sofreu estigma social, teve que se mudar várias vezes e perdeu Leide e Lucimar. A Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio) presta apoio a dona Lourdes.

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Fonte (canonical): https://www.newqueercinema.com.br/streaming/tragedia-familiar-causada-pelo-cesio-137-contada-documentario/
